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19
Ago15

Bem vinda, Fa

por Hilton Besnos

Por motivos óbvios, vou chamar minha aluna de Fa. Enfim, o nome é o que menos importa. Ela foi minha aluna em uma C10 (sexta série), há cerca de dois anos. Deveria estar, hoje, seguisse o fluxo normal, em uma C30 (oitava série). Na época, 2008, Fa era uma menina de 14 anos. Como aluna, era mediana, com algumas dificuldades cognitivas, mas que também possuía um jeito muito interessante de se relacionar com a turma. Embora tímida, sorria constantemente, era gentil e educada e por isso não sofria das razoavelmente comuns rejeições que muitas vezes eternizam a adolescência.

Um dia, Fa sumiu das aulas, deixou de vir à escola. O motivo não lembro. Talvez seus responsáveis tivessem trocado de endereço, saído da cidade, … não sei. “Mais uma perda”,  pensei na época. Fa era uma bela adolescente, esguia, com lindos olhos castanhos e vinha de uma família desestruturada, paupérrima e com toda sorte de dificuldades. Ano passado, alguém comentou que ela teria sido vista se prostituindo com motoristas de ônbus, que havia “virado uma garota de programa”, o que me deixou bastante entristecido e chateado.  No entanto, quando somos professores das escolas do município de Porto Alegre, nos habituamos com a rotina cruel dos bairros periféricos: passsamos a conviver com alunos que se drogam ou viram mulas para o tráfico e com uma violência real que pode inclusive terminar na morte por assassinato. Não é nenhum fato novo que isso ocorra.  Nos acostumamos a viver com as possibilidades  estúpidas de termos em aula adolescentes que, de um modo ou outro, estão em risco social ou em marginalidade; que são abusados ou tratados com uma gélida indiferença por seus pais ou responsáveis.  Nos habituamos infelizmente a partir do princípio de que  o ser humano muitas vezes esquece do que é e do que os outros são. Ao cabo, todos  necessitando das mesmas coisas: um teto, carinho, atendimento às necessidades básicas, educação, saúde. Nos esquecemos disto na medida em que nos esquecemos  do que somos para além das máscaras sociais.

Hoje novamente Fa é minha aluna, não em uma C30,  mas em uma CP, desaguadouro dos alunos que não conseguiram manter o equilíbrio possível entre idade e nível de estudo. Em março último, quando a reconheci em aula, primeiro pelo nome e só depois pela aparência, ela pouco guardava de suas esguias formas adolescentes. Com apenas 16 anos, tem o corpo quase que de uma matrona. Engordou em demasia, seus quadris alargaram e as roupas que usa denunciam seu estado de pobreza. No corpo de mulher, de quando em quando surgem os traços da adolescente que conheci. O que houve entre a Fa de 2008 e a de hoje é uma história que desconheço, mas sei reconhecer onde e até que ponto a miséria pode conduzir.

Na aula Fa estava lendo a Bíblia, enquanto fazia anotações eventuais em seu caderno. Seu comportamento é pacífico e seu sorriso continua tímido, contido; de certo modo parece estar conformada em purgar o que passou. De quando em quando seu pensamento se volta para a sala de aula, mas não é consistente, e os cálculos de matemática efetivamente não lhe prendem a atenção. Compreendo,  sei que ela necessita muito mais matutar e afastar seus fantasmas internos e reais nesse momento do que calcular raízes quadradas ou tentar  se concentrar em simplificar radicais. A realidade impõe tal condição.

Algo destruiu a menina e a adolescente, e nada deixou para que a mulher amadurecesse. O corpo denuncia a tristeza da alma, e isso não é tão incomum Mas, de uma forma ou de outra, habitando mundos tão diversos e com todas as dificuldades possíveis, ela está de volta. Seja bem vinda, Fa.

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19
Ago15

O nome disso é misoginia

por Hilton Besnos

https://www.facebook.com/grupogemis

 

 

ELA NÃO FEZ NADA PARA ELE "PERDER A CABEÇA"
O NOME DISSO É MISOGINIA

Por que não questionamos os homens sobre a violência que eles cometem? Por que não perguntamos para o agressor "por que você bateu nela?", "Por que você a mutilou?", "Por que você tentou matá-la?", "Por que você a estuprou?". A resposta para todas essas perguntas, com as particularidades de cada caso, serão sempre a misoginia e machismo que estão naturalizados na nossa sociedade.

Então por que jornalistas pensam ser razoável confrontar uma vítima de violência com a pergunta "por que não se separou no primeiro tapa?". Esse tipo de questionamento é exatamente culpabilizar a vítima por algo que ela passou. Colocar a pergunta na boca do leitor não justifica o fato dela ter sido feita e publicada. Ao perguntar isso, se está sugerindo que ela poderia ter se salvado, que foi tudo culpa dela, que ela deveria ter percebido. Milhões de mulheres são agredidas por seus parceiros todos os dias.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres estima que, a cada 12 segundos, uma mulher é vítima de violência física. O Mapa da Violência 2012: homicídios de mulheres – documento mais recente sobre o tema – aponta que os feminicídios acontecem na esfera doméstica: 68,8% dos atendimentos a mulheres vítimas de violência aconteceram na residência das próprias vítimas e, em pouco menos da metade dos casos, o perpetrador é o parceiro ou ex-parceiro da mulher. Na faixa etária de 20 à 49 anos de idade – a mesma de Gisele Santos, brutalmente agredida pelo parceiro – o percentual é assustador: 65%.

A reincidência dos casos é grande, assim como na situação de Gisele: supera os 50%, na faixa etária entre 20 e 49 anos. Por que eles continuam com esta violência? Por que se sentem exatamente que a nossa sociedade culpa elas por tudo o que fazem. Quando se separam, culpam elas por terem feito isso, e quando permanecem, também culpam por serem agredidas, espancadas, estupradas, mortas.

Gisele quase foi morta, ela se recupera de um horrível trauma que a trará inúmeros incômodos e dificuldades durante a vida toda. E a pergunta que "os leitores" querem fazer para ela -- e que algum jornalista acreditou que seria uma boa ideia passar adiante -- é o que "ela fez" para ele perder a cabeça. O que ela fez? Não foi mais propriedade dele, só isso.

O nome disso é misoginia e é tentativa de feminicídio. Isso não é um "crime por ciúmes" e nem um "crime passional", como alguns jornalistas insistem em publicar. Isso é uma epidemia na sociedade brasileira de homens que pensam que mulheres são sua propriedade e, por isso, pensam ter o direito de agredi-las.

Quem é jornalista sabe (ou deveria saber) que o trabalho produzido é feito por meio de escolhas, mesmo que inconscientes. O que se quer publicar e o que se quer omitir. O que se acredita ser relevante para o leitor e o que se acredita não ter importância. A publicação dessas perguntas mostra que a subjetividade dos profissionais envolvidos na matéria é permeada pelos mesmos valores de certa parte da sociedade, que pensa que a culpa pela violência sofrida pelas mulheres é delas próprias.

Arte: Nádia Campos Alibio

Foto de Gemis - Gênero, Mídia e Sexualidade.
 
 

 

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