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Dia desses, na Feira do Livro, na Praça da Alfandega, estava peregrinando entre uma e outra banca quando escutei a frase: “Essa feira já devia ter acabado”, dizia um, com o que o outro, parceiro do primeiro, evidentemente concordava. “Em plena era da internet esse tipo de feira já ficou anacrônico!”. Fecha o pano. Fiquei lembrando de uma situação vivida há anos, quando fiz Pedagogia. A professora trouxe um texto que questionava justamente a possibilidade do livro vir a tornar-se um objeto de museu, na medida em que poderia ser engolido pelas novas tecnologias. A tarefa era a de que colocássemos nosso ponto de vista de modo textual, utilizando possibilidades argumentativas que justificassem a posição tomada. Me lembrei de tudo isso tão logo ouvi a frase acima. Continuo tendo a mesma opinião. O livro não é substituível. O texto pode até ser produzido em várias midias, mas o quase fetiche pelo livro, a dedicação – dedicar-se – pelo livro não é algo que possa se extinguir. Poderia ficar ainda um bom tempo falando sobre vantagens e desvantagens de se ler em uma tela de computador em contraste com a leitura feita em um livro, mas penso que, aqui e agora, não é o caso. De certo modo há um travo de ironia aqui, especialmente quando escrevo sobre as possibilidades de alcance de um livro e de uma mídia eletrônica. Por que?
Ora, o BLOG DO BESNOS já ultrapassou 138 mil acessos e é bem mais do que provável de que não conseguiria tamanho alcance de leitores se não dispusesse de um blog. Hoje temos uma média de 300 leitores por dia, havendo picos positivos além de 400 acessos diários. No entanto não seria pela enorme satisfação pessoal que sinto por ter chegado a cada um dos meus leitores que me faria dizer que o livro um dia será dispensável, pois há todo um ritual, uma cumplicidade entre o livro e o seu apaixonado leitor. O livro tem um cheiro de aventura, ou de desejo, ou mesmo de desesperança, mas é um cheiro que evola de suas páginas, de suas histórias, de seus envolvimentos com as nossas próprias vidas e fantasias. Alguém consegue imaginar um notebook ou um netbook sendo lido por alguém sentado em um onibus lotado? Ou numa redinha? Talvez até possa, mas o contato físico do livro é fundamental.
Por outro lado, penso que o moço pós-moderno errou o peso da mão no seu palpite. Quantas pessoas tem acesso a um computador no Brasil? É bem verdade, não percamos de vista, que o nosso país é um dos campeões da internet, do acesso à web, mas temos, aqui, uma área continental. E, por falar nisso, uma feira de livros estimula justamente não apenas o consumo monetário de um livro, mas também a volúpia de uma capa bem feita, incentiva a leitura, nos mostra como podemos estabelecer uma relação de amor com os lugares do mundo, com as narrativas e com os tempos passados e futuros que talvez só tenhamos noção através das viagens que os livros nos proporcionam. Ler é bem mais que apenas decifrar um código escrito, bem mais que tão-somente ler. É, de certo modo, nos tornarmos presa e caçador das emoções que nos varrem quando mergulhamos em um texto. E o objeto livro, para isso, é incomparavelmente mais interessante que qualquer mídia não impressa.
Finalizando: seja em Porto Alegre, em Paraty, em São Paulo, em Passo Fundo, em Buenos Aires, no Rio ou em alguma cidade das mais de quatro mil espalhadas somente pelo Brasil, em qualquer uma delas, sob qualquer circunstãncia e proporção, vivam todas as Feiras do Livro! HILTON BESNOS
Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=GREMIO+fbpa&z=e&page=2
De gremista para Colorado
Fim do sonho? Acho que não, afinal de contas quem chega duas vezes em um mundial de clubes, pode chegar quantas vezes quiser; porque se abalarem por uma derrota se tem times que se dizem serem GRANDES, com nomes de TIMÃO e nem sequer tem uma Libertadores. O sonho de “momento” acabou mas o espirito colorado não, a raça que talvez não teve em meio time, vai continuar pois é assim que o Inter sempre esteve presente em suas competições, não se pode ganhar todas mas quem é campeão de tudo, não tem porque cair diante de uma derrota. O colorado vive de batalhas, lutas e de vitórias, porém quando elas não vem, ele vive da lágrima da derrota, melhor do que a vergonha de não ter lutado, como pode a torcida rival querer rir?
O presidente do clube Imortal colocar em Twitter palavras engraçadas se o máximo que conseguiu foi um quarto lugar no Brasileiro e com a ajuda de um time argentino, chegar a uma pré-libertadores. Pense bem, vocês apesar da derrota, foram muito mais longe e mais uma vez provaram a GRANDEZA do Internacional, talvez ninguém acredita mas isso também é uma imortalidade, faz uns cálculos e tente vê qual o clube brasileiro que mais ganhou títulos Internacionais durante esses quatro anos, o São Paulo? Flamengo? Grêmio? Ou Corinthias? Acho que nem preciso dizer o clube mais vitorioso…
Parece que foi em vão que lutamos tanto tempo.
A partir desse momento julgamos vã a existência,
Mas é preciso coragem, e com muita persistência.
Temos que deixar o fundo e voltar ao nosso mundo,
lutar, sorrir e vencer, ser donos do nosso ser
Não nos deixarmos perder.
Há que saber aceitar o que o futuro quiser dar…
Só assim, com confiança,
Voltaremos a ter esperança, voltaremos a ter vida,
voltaremos a sonhar!
Parabéns pelo espírito de luta, pelo clube ter ido tão longe, onde todos os clubes já estão de férias e não tem mais nada para disputarem; lembre-se que o sonho só acaba quando o sonhador não quer mais sonhar e não é isso que espero do meu maior rival e de uma torcida tão fanática e apaixonada! Força para o colorado de glória e orgulho do Brasil.
Abraço!
Oberdan Machado

Pois aí estou eu, segundo o Oberdan, meu querido ex-aluno e possuidor de um traço único, qaue você pode apreciar no blog CARTONS DO OBERDAN http://cartoonsoberdan.blogspot.com/
Ele foi preciso no desenho, na época eu costumava ir à escola com a camiseta do Boca Juniors, e com esse aspecto totalmente despojado que vocês podem apreciar. Não se iludam, o traço do Oberdan é preciso. Foi uma homenagem que ele fez para os professores da EMEF Chico Mendes, e todos os desenhos estão muito parecidos às pessoas.
Atualmente o Oberda, que tive o prazer de dar aula de matemática na EJA da Chico Mendes na noite, faz os cartoons do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, do Grupo RBS.
Obrigado, Oberdan, pelo seu traço, um grande abraço!

Fonte: pretinho básico, o povo muito muito tudo de bom da Atlantida FM, POA, RS
Por volta de meados do ano passado, descobri que a História oficial estava tendo um novo enfoque, que era justamente a história real das pessoas, a compreensão de como uma história pessoal pode trazer novos dados e confirmar ou não todo um estudo baseado em documentos, fotografias e assim por diante. Estou me lembrando disso para narrar uma grande história. A história de um cara que foi estudar à noite na educação de jovens e adultos da Escola Municipal Chico Mendes, e que foi meu aluno durante algum tempo, o suficiente para que seu nome não passasse em branco e mais do que suficiente para que o mesmo fosse construindo uma história ímpar.
O nome dele é Oberdan Machado.
Pois o Oberdan tinha um talento que logo foi descoberto por todos nós, professores da EJA: ele sabia desenhar. Bem, mas o que um cara morando em uma vila extremamente violenta de Porto Alegre poderia fazer com o seu desenho? A resposta não era animadora, mas tivemos a clara impressão de que isso deveria ser incentivado. Então todos nós fizemos isso a partir do momento que descobrimos essa possibilidade de impulsionar o Oberdan. Logo ele passou a desenhar tudo que a escola solicitava. Cartazes, desenho do povo da EJA, situações que envolviam a bilioteca, os projetos da escola, lá estava o traço do nosso querido aluno. Mas ele tinha outras habilidades. Era um aluno que sempre se mostrava interessado, que organizava os seus materiais e que aprendia com enorme facilidade. Eram tantas as qualidades que o desenho era apenas mais uma delas.
Mas sempre persistia a pergunta: o que fazer com a enorme veia artística e com sua criatividade? Era assim: se o professor de história pedia um trabalho, lá o Oberdan fazia o trabalho e desenhava de modo ímpar a capa do trabalho. Um cara legal, um ótimo aluno e uma educação e um nível de relacionamento muito bom. Tão bom que um dia isso começou a despertar problemas em relação aos medíocres, aos invejosos, aos famosos cães que ficam ladrando enquanto a caravana passa. Os cães mostraram que tinham dentes, e fortes. As mordidas que nosso Oberdan recebeu foram tantas que ele custou um pouco a sarar. Isso fez com que ele quase desistisse da escola, do desenho, de tudo. Mas cães são cães, e as feridas cicatrizaram. As feridas de cães travestidos em homens que vem ao planeta apenas com uma missão: infelicitar os outros. Mesmo isso Oberdan superou.
Quando Oberdan se formou na educação de jovens e adultos, todos nós ficamos muito felizes, porque sabíamos que ele tinha superado vários cães, vários canalhas, vários hipócritas. Mesmo assim, nosso querido aluno não deixou de ir à escola, que havia se tornado uma referências. Assim como ele, cada um de nós se tornou uma referência boa em sua vida. A escola não mais era uma escola, mas a extensão de sua vida.
Um dia ele foi nos dizer que iria trabalhar na Zero Hora, junto ao povo do Pretinho Básico, fazendo cartoons. Como é que a gente faz para expressar toda a alegria que esse cara nos traz, especialmente quanto conhecemos a sua história, quando sabemos dos sacrifícios pessoais que ele teve e tem ainda de enfrentar? É mais do que satisfação. É um pedaço meu que se alegra, que me fez imensamente feliz por ter participado de sua história.
Até que, finalmente sexta-feira última, estávamos todos em reunião quando vi o Oberdan me acenar, do lado do fora da sala. Fui ter com ele, e Oberdan tremia, estava branco que nem um papel, estava nervoso, mal se continha em pé. O que houve, perguntei, e ele disse: “Gabaritei a prova do ENEM!”. Abracei-o, emocionado e interrompi a reunião para transmitir a notícia. O que se seguiu foram abraços, felicitações e um sentimento enorme de respeito pelo Oberdan, pela sua arte e especialmente pela bela pessoa que ele é.
Oberdan, meu ex-aluno, Oberdan, meu gremista predileto, Oberdan, tantas vezes superando a tudo e a todas as circunstâncias que o pressionavam constantemente a desistir, você que venceu tudo e que vai continuar vencendo e que vai, sim, se tornar designer e que vai, sim, ter uma vida de paz, sucesso e alegria, Oberdan, que escolheu ser o que de melhor possa, você é o cara! HILTON BESNOS

TENHO três filhos.
O primogenito, Gabriel, é herdeiro da geração baby boom.
Aliás, eu mesmo sou um baby boomer posterior (nascidos entre 1954 e 1964), enquanto ele é um membro da geração Y (entre final dos anos 70 até meados de 1990) a primeira geração a adotar amplamente todos os meios de comunicação possíveis e as tecnologias da informática. As características das gerações são diferentes entre si, mas ele viu seus pais trabalharem toda a vida para construir uma carreira e uma aposentadoria sólida dentro do possível. Então, embora faça parte de um mundo bem mais tecnológico, sonha e produz com vistas em um futuro baseado na criatividade e no trabalho duro para realizar seus desejos, entre os quais se encontram viagens, gastronomia, cultura.
A construção que impôs a si mesmo é de uma carreira seqüencial, Embora tenha no trabalho do pai e da mãe uma referência, meu filho não deixa de aproveitar o que eu, muitas vezes, deixei; não perde oportunidades para suas autogratificações. Tour de force são necessários, mas os prazeres de uma atividade criativa como publicitário e designer, aos quais se ajuntam prazeres estéticos e culturais o mantêm ligado em uma vida mais fluída e dinâmica.
Gabriel circula em um meio que Bauman denomina de líquido, e as questões postas no limite de uma vida pontilhista, onde desponta o consumismo e a constante re-identificação com vistas a inserção social não lhe são desconhecidas. Contrariamente, lhe são bastante próximas, sendo absolutamente indispensável tal conhecimento dentro de seu méttier.
No entanto, justamente por ser herdeiro de um baby bomer posterior, prazos são indispensáveis, compromissos são para serem cumpridos e caráter é algo que se leva no DNA.
Quando me separei de sua mãe, Gabriel, claro, sofreu, mas um ano depois, já estabelecido e iniciando com uma colega sua própria agência de design, me chamou para dizer que não precisava mais da pensão alimentícia que eu lhe pagava à época. Disse que já se autosustentava e que, portanto, não achava mais necessária a proteção paterna neste sentido. Ajuntou que sabia que poderia sempre contar comigo. Até hoje, Gabriel não me pediu mais um centavo, o que prova não apenas que estava certo desde que tinha dezoito anos e que caráter é uma característica da educação que recebeu.
Gabriel oscila entre o mundo do produtor, segundo Bauman, e do consumidor, entre a obrigação e o prazer, entre as viagens de avião a negócios e aquelas feitas para turismo. Citando Rifkin, na obra clássica “O fim do emprego”, meu filho está bem distante de ser uma pessoa com a qual o mercado se desimporta; méritos, trabalhos e conquistas pessoais e profissionais são seus créditos intransferíveis, bem como um sentido de empatia que é admirável.
Meu filho Gabriel, com quem discuto de quando em quando, em tudo responsável, meticuloso, humano e criativo.
Tenho três filhos.
Miguel, geração Z.
Como Gabriel, voltado para a criatividade, na qual se mesclam o talento e o estudo constante, contínuo. Miguel será músico; decidiu com base em sua vocação desde os onze anos, quando misturava os sons de violões e guitarras. Ele tem nos ensinado que ser músico é um caminho que envolve dedicação, sensibilidade e muito trabalho. Percebo que Miguel quer ter uma vida mais para Domenico di Masi do que para indústria, comércio ou administração. Não lhe importam, absolutamente, as competições e as armadilhas do mundo gerencial. Miguel não acha que é looser quem não ganha muito dinheiro ou não tem sua posição social reconhecida entre seus pares. Aliás, os conceitos que envolvem uma vida predatória ou extremamente competitiva não lhe são caros. Miguel não é darwinista, nem pretende, hoje, alçar voos nos quais tenha de comprometer seus valores pessoais.
Ele desenha sua vida como quem aprende música, uma vida gratificante, boa de ser vivida, sem os incômodos e os percalços que a excessiva competição no mercado exerce sobre nossas redes neurológicas, o que não significa que vá, facilmente, abrir mão do que entenda correto e do que entenda seja seu merecimento.
Com vinte e quatro anos, provavelmente estará recebendo o diploma de músico; portanto, com baixa idade terá ainda todo o tempo do mundo para se dedicar e se focar em seus interesses. No entanto, talvez, já agora, seja esse o seu marco principal, o de enxergar a realidade com olhos de quem se sabe inserido e não com os olhos de quem tenha de juntar coisas para se sentir inserido. Não quer ter uma vida na qual misture compromissos inadiáveis, pílulas para dormir, outras para acordar e se sinta, ao fim e ao cabo, infeliz e depressivo. Miguel sorri um sorriso amplo, franco, desmedido, mas também é capaz de se aborrecer muito facilmente quando situações antagônicas lhe são propostas. E quando se aborrece, faz questão de demonstrar o que pensa.
Às vezes, olhando meu filho e conversando com ele, penso que, em verdade, ele nos ensina muitas coisas, dentro do que conhece e de suas experiências. Como ser dedicado ao que elegeu, como ser honesto em suas convicções e como não querer se expor em um mundo de conveniências e de altíssima competitividade social, talvez sejam apenas algo do que aprender.
Tenho três filhos.
Matheus, o atual, o da geração blz, aquele que não nasceu, mas que (quase) foi o produto de um download, tem apenas nove, mas todas as esperanças, todos os sorrisos, todos os amuos, todas as descobertas, todas as perguntas, todas as novidades do mundo, que cabem dentro de um corpo e de uma mente para os quais o mundo da informática e da comunicação interativa são tão comuns e habituais como trocar de roupa.
Matheus tem um grande nível de informação, mas também tem infância, o que significa andar de skate, ficar horas conversando com seu amigo Pedro, ir para o parque, ler, ir à escola (meninas, nessa fase, nem pensar!, pois são umas chatas!, como todo mundo sabe…).
Afora a escola, tem aula de taekwendo e de inglês, e a sua vida se mistura com às dos heróis, dos games, das eternas e constantes novidades (você sabia que kauai, em japones quer dizer legal, no mesmo sentido de cool, em inglês? Não? pois tenha um menino Matheus e você saberá).
Ele tem todo o conhecimento para aprender, tem toda uma amplitude para descobrir, todos os caminhos para trilhar, e para nós, pais, resta a sabedoria de Khalil Gibran: temos de nos lembrar que filhos são flechas disparadas para o futuro e que pais são os arcos que os tensionam e lhes dão um caminho de valores a serem respeitados.
O mundo de Matheus é um mundo de histórias, nem sempre completas, e um mundo inquieto, porque é uma circunstância de sua época.
Matheus, de modo geral, lembra um pouco o menino maluquinho, do Ziraldo. Que bom que é assim e que bom que possamos crescer junto a ele e às suas cotidianas invenções!
Tenho três filhos.
Diferentes entre si, com quase dez anos de diferença entre eles, Miguel, Gabriel e Matheus, três gerações distintas, três cabeças, três corpos e três caminhos. Que Deus me oriente de modo a preservá-los com seus valores e suas educações, e que eu possa servir-lhes, antes de tudo, de exemplo e de honradez. Afinal, no fundo, continuo sendo um baby boomer. Já não tão convicto, mas dentro das circunstâncias, ainda alguém do século passado.
Amo a todos e agradeço a Deus por me permitir estar tão próximo dos três. Um dia, serei lembrança. Que, quando isso acontecer, eles possam ter belas recordações e bons exemplos para temperar suas vidas, e terei conquistado o que, para mim, é o mais valioso.
Beijos,
hILTON
Originalmente o texto terminava aqui, mas… não termina, porque nós temos a Vitorinha querida!
Tenho uma filha.
Vitória,uma grande usina de energia, e que tem hoje cinco anos.
É estranho criar uma filhota quando você tem três filhotos. Minha filha Vitória atualmente tem cinco anos, e é uma menina muito esperta, no melhor sentido. Mas meninas são curvas, meninos são retas, e talvez seja essa uma das impressões que mais me marca quando a vejo.
Vitória é uma curva que anda, que baila, que fica braba e que por vezes se enrosca como um pequeno novelo de lã. Minha Vitorinha muitas vezes nos tira do sério, porque se irrita com muita facilidade, o que significa que nos irritamos igualmente, o que às vezes é complicado.
No entanto, a Vitorinha é tão doce que parece mamão com açúcar, brigadeiro, romeu e julieta, jabuticaba colhida no pé. Nossa querida já sabe escrever todas as letras, já sabe as vogais, mas ainda não tem a compreensão fonética. Já sabe escrever seu próprio nome e dorme com muita facilidade. Acorda todos os dias pelas sete e meia ou no máximo oito da manhã.
Nossa Vitória tem o mundo pela frente, como se diz por aí, e que esse mundo seja pontuado por alegrias e que ela aprenda a derrotar todos os problemas e os percalços que tiver de enfrentar em sua vida. Especialmente que ela mantenha o mais belo sorriso que já vi.
Que ela aprenda que o lobo não é sempre mau, que os dias são um pouco mais do que a infância. E que nos deixe a todos assim, encantados. Como os contos que lhe conto à noite, antes de dormir.
Te amo, filha.
Escrito em 2013, final do ano.
Pai Hilton
Chega de dia de luta!
Quero um dia de descanso, de paz, de conversas, de músicas, de risadas abertas e sinceras, um dia inteiro de confraternização!
Chega de dia de luta! Chega de atos públicos, de audiências, de reuniões intermináveis, chega de carrancas! Quero um dia-noite suave, com murmúrios, com vagares, com vinhos e carícias inclusas…
Chega, por favor, basta de discursos, de compromissos, de chateações, de discursos universitários, de grandes propósitos, de constrangimentos obrigatórios e ocasionais!
Quero oxigênio, quero alegria, menos ruído, menos desgaste, menos explicações, menos rodeios, menos argumentos, menos circunlóquios, e muito, mas muito mais vida!!!
http://www.flickr.com/search/?q=rede+social&z=e&page=5
POIS O FACEBOOK E OUTROS CONGÊNERES ME ALERTARAM que não sou mais um ser desejável, do ponto de vista de uma boa parcela (a esmagadora, sem dúvida) de usuários das redes sociais. A minha idade, 57, me descarta completamente do paraíso virtual das imagens nas quais moças/moçoilas exibem seus belos rostos (às vezes um pouco mais, é verdade…), afirmando buscar conhecer rapazes (aqui, é possível que nem sempre “conhecer” esteja em seu significado bíblico, embora tanto não seja obviamente descartado…) até “x” anos (sendo a variável “x” sempre abaixo da minha idade atualíssima). Poucas as que se aventuram além dos cinquenta anos. Logo, grosso modo, estou excluído pro tempore de mercado tão sedutor.
Realmente, vamos convir, nunca fui (menos ainda agora) um rapaz “sarado”, e muito menos tenho um estômago delgado ou “tanquinho”, sequer sou uma pseudocelebridade e também não posso dizer, de sã consciência, que meu crédito é ilimitado. Não sou CEO de qualquer corporação. Igualmente não detenho poder político ou econômico que me permita transformar pedra em porcelana ou, ainda, submeter pessoas às minhas vontades, conforme aprendi, sempre em boa hora, lendo A Anatomia do Poder, de Galbraith1.
Na medida em que o tempo flui, menos serei convidado a participar de encontros descartáveis (para usar uma linguagem bastante utilizada em Bauman), a não ser que utilize de ardis, que iniciam com esperanças e desejos e são extinguíveis a um clique instantâneo. No entante, tal descarte não me atemoriza, deprecia ou aborrece, apenas sinaliza claramente o que, de todo, já sabia, o que os fatos gritam: o meu encaminhamento para circunstâncias onde as realidades são novas, distintas do mundo meramente virtual.
Reconheci, há tempos, que o amor, a amizade, a paixão e o desejo dispensam o virtual, embora o último possa ser caminho para os primeiros. Tais sentidos e significações prescindem de uma apresentação edulcorada, embalada em blister dourado ou prateado. Igualmente tais sabores não são obrigatoriamente encontrados em festas rave, em excitações sagradas regadas a rock ou heavy drinks. Para o todo que até hoje vivi, um bom jazz, uma Amy Winehouse, um Arvo Prätt, uma Buenos Aires brumosa, um toque de pele, muito humor e pessoas criativas e inteligentes já compoem um belo cenário. Com a vantagem de que, para tanto, não é imprescindível estar continuamente alimentando celulares e redes sociais. Não aos 57. HILTON BESNOS
1 A anatomia do poder, Galbraith, John Keneth, Edições 70, 2007

Estou lendo “A estrada da noite”, de Joe Hill (título original Heart-Shaped Box, 2007, ed. Sextante). O enredo da história não tem grandes novidades, e as vezes tenho a nítida impressão de que estou lendo um roteiro de filme que, em seguida será lançado no mundo todo. Como o tema do livro é a luta entre um casal não muito convencional e um fantasma, novamente surge, inconfundível, a mesa ouija. Fiz uma pesquisa muito rápida porque invariavelmente ela aparece em vários títulos de livros e de filmes de terror. Afinal, o que é uma mesa ouija? Segundo o que aprendi, é um equipamento pelo qual pessoas podem se comunicar com espíritos, seguindo determinadas regras. Até aí, nada muito específico para você, ilustre leitor desse blog. Parece, isso sim, que a mesa ouija é um atalho, um acesso direto a um mundo que chamamos de transcendente. Nessas breves pesquisas, há relatos de pessoas que tiveram graves problemas após utilizar tal caminho, de outras que não apresentaram qualquer problema no uso do equipamento e de outras que inclusive brincam e debocham do mesmo, em relatos das mais diversas ordens.
Eu sou um ignorante no assunto, mas não creio que qualquer sinal de transcendência deva ser tratado com desrespeito e, especialmente como se fosse uma brincadeira de finais de semana entre pessoas que querem “curtir” uma diferente. Se a mesa ouija (alguns chamam de Tábua Ouija) lida ou pode lidar com espíritos, é necessário encarar o assunto com respeito e com um mínimo de conhecimento.
Aliás, essa é uma das fundamentais diferenças entre conhecimento e informação. Conhecimento é informação amadurecida, e qualquer assunto de qualquer natureza deve ser tratado com amadurecimento. Assim noto que a mesa passou a ser algo tão banalizado quanto qualquer outro tema. Não gosto disso. Não gosto de reducionismos e tenho um profundo respeito às religiões, mesmo que Marx as tenha denominado de “ópio do povo”. Respeito aquilo que se chama de sentido, sentimento religioso. E, cá pra nós, utilizar como um clichê algo que pode nos colocar em contato direto (segundo dizem os entendidos no assunto) com outras esferas e, portanto, outros cenários sem que tenhamos já amadurecido um conhecimento sobre o assunto, me parece mais jogada de marketing ou um profundo desrespeito com as significâncias e significados que as pessoas cultuam em seus relacionamentos com o exotérico.
Ricardo, Stalimir e eu, com uma diferença de 50 anos: amizade é vinho.
Encontrar-se, um happening.
Tem amizades que, durante algum tempo (ou muito) ficam em stand by. Isso: ficam ali por perto, esperando serem ativadas; se não forem, vão ficar insensíveis, esperando que o sentimento que as mantém ligadas colapse de vez. Essas são amizades que estão contingenciadas a determinadas passagens e cenários de nossas vidas; são aquelas da época da escola, da época em que trabalhamos aqui ou ali, dos momentos mais ou menos marcantes em que tais ou quais pessoas estavam mais ou menos próximas. Significa que a proximidade continua? Não, mas sim que ela pode ser resgatada em razão da significância dos momentos em que privamos dessa amizade ou, simplesmente, pela nossa memória, que passa a buscar pessoas importantes em determinados eventos em nossa vida. No entanto, se a amizade está em stand by, nem sempre isso é possível, pois os cenários mudam e talvez obtenhamos, tão-só, uma cordialidade um pouco mais atenciosa, mais saborosa, mas não mais a intimidade plena que é requisito para a amizade verdadeira.
A amizade requer, especialmente, renúncia, interesse na outra pessoa pelo que ela é, compreensão, e mesmo oposições. Podemos ser duros com nossos amigos: eles entenderão, mesmo que sejam dispensáveis as palavras. Há uma sinergia presente, há um doar constante, há uma cumplicidade que o tempo cada vez mais ajuda a construir.
Costumo dizer que amizade é amor sem sexo. O contrário não é verdadeiro, porque o amor não dispensa a amizade. Sou mais amigo de quem mais amo. Como o amor mesmo pode dispensar o sexo (a paixão não!) podemos então, verdadeiramente, sermos amigos de pessoas do mesmo gênero ou não. Aliás, o que mais nos impede de cultivarmos amizades reais são conceitos ou pré-conceitos sócio-culturais e histórias de vida. Quando, contudo, nos ocupamos de nossa humanidade, absolutamente desimporta qualquer outra referência que não seja a humanidade do outro. Claro que podemos ter amigos que sejam mais ou menos humanos que nós, mas quem cultiva a intolerância ou quem restringe as suas experiências e relacionamentos à uma carta de obviedades, tem maiores dificuldades em se encontrar plenamente com grandes amizades.
É necessário, também, que nos permitamos ser flexíveis o suficiente para compartilharmos com os outros o que somos. Por vezes nossa auto-crítica anda tão alta e nossa estima pessoal tão baixa que nos tornamos áridos, secos de sentimentos e mesmo estranhos a nós mesmos. Não raramente deixamos de viver prazeres porque nos embrutecemos a tal ponto que perdemos a capacidade de sentir e, portanto, de nos congraçarmos com o outro. Passamos a ser vítimas de uma indiferença a qual demos causa.
Grande amigo meu, D., tem conversado comigo de quanto percebe as amizades ou os relacionamentos esvaziados; casamentos, namoros, nada disso parece estar a salvo de um escapismo individualista, em que cada uma das partes busca, em primeiro lugar, seu interesse, para somente depois pensar ou referenciar o outro. Infelizmente tenho de concordar, pois é assim que percebo um mundo onde as intenções sempre passam pelo individual, pela satisfação de desejos muitas vezes inalcançáveis. Talvez por isso a amizade seja cada vez mais tão buscada, como um aporte aos sentidos e aos sentimentos, como um local especial, onde podemos confiar, onde podemos ser nós mesmos. A retirada da máscara social da conveniência talvez seja, aí a operação mais difícil e, por todos esses fatores, é indispensável que haja tempo para que a amizade amadureça, crie vínculos, raízes, possa estender-se além do manto da superficialidade óbvia a qual todos nós nos submetemos.
O tempo para descobrirmos o sabor do vinho, para crescermos, para chorarmos e nos angustiarmos; o tempo para sorrirmos e construirmos nossos pequenos-grandes sonhos, para caminharmos e reconhecermos, em nossas vidas, um projeto. O tempo para que tenhamos possibilidades reais de termos poucos, raros, talvez apenas um amigo. Talvez, e com muitíssima sorte, um Schannini José K, ou um Stalimir, ou um Delmar, um Antonio Augusto ou uma Jaqueline.
Amizades que lembram um vinho (e é claro que muitos amigos/as não estão listados/as como exemplo, mas poderiam estar, sabem disso) maduro, requerendo tempo, maturação, conversas, troca de experiências. A amizade reside aí, e não nos interesses imediatos e negociais. Somos amigos porque queremos ser e continuar sendo. Como disse uma vez, amizade é amor sem sexo.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.