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14
Ago15

Sou herói

por Hilton Besnos

Sou um herói, e isso me basta. Não necessito nem quero ser um super-herói. Sou filho de Deuses, mas igualmente sou humano, e por isso penso que ser um super-herói é um exagero, quase um sacrilégio. O que é ser um super-herói, senão ser um personagem que não pertence a lugar algum? Meus pais são Deuses, meus vícios são humanos, e parte do que sou é herança divina.

Muitos dizem que sou um mito, que não sou real, porque não me concebem dentro da herança que receberam muito depois que eu conhecesse o mundo inferior e superior. Destruíram nossas verdades, mentiram sobre as vestais, e parece que nada que não seja do Triunvirato merece respeito, como se ele próprio não fosse um mito.
De todo modo, Cronos, o Senhor dos Tempos, nos aponta as portas do mundo. É preciso esperar um pouco mais, o suficiente para que retornemos ao coração dos homens e às suas habitações

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14
Ago15

Fácil, muito fácil

por Hilton Besnos

Uns dias atrás, matei uma pessoa, mas, no fundo, foi um ato de caridade, afinal a criatura tinha completado 90 anos, e, pra ser bem sincero, ninguém sabia o que fazer com ela. Então um parente distante me contratou e eu fui lá e executei a velhota; sim, era uma mulher, daquelas quase carecas, de cabelo bem branco, mas isso é alta bobagem, pois o que interessa – sempre – é o serviço bem feito. E foi, até porque a mesma sofreu muito pouco, bastou gastar uma bala de revolver, dessas de trinta e oito e – zapt! – foi acabado todo o sofrido sofrimento.

Uma semana depois, recebi o pagamento e fiquei feliz, embora mil e trezentos reais não dê pra quase nada. Bom mesmo é matar gente importante, mas o trabalho, aí, muda de figura, pois é preciso muita campana, muito preparo, muita observação e, cá prá nós, nem sempre recompensa. Bom mesmo são esses trabalhinhos fáceis, eventuais, meio free-lancer.
 
A gente tem pouco estresse, vai lá, faz um servicinho bem feito e pronto – nada melhor do que dormir descansado, sem dever nada a ninguém. É encomendar uma morte boa e fim, o resto… só maravilha.

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13
Ago15

Minha derradeira vitória

por Hilton Besnos

Hilton Besnos

Tenso como uma peça de estanho, busco em tua vida o que restou da minha. Lembro-me, sempre, de como aconteceu a minha morte, meu derradeiro alento. A lâmina penetrou profundamente em minha carne; primeiro em meu braço, mas eu ainda vivia, depois meu fígado e rins foram golpeados, mas mesmo assim eu lutava desesperadamente, até que, finalmente, abandonei-me ao torpor quando a quarta facada feriu minha jugular.

Esvaí-me como uma vela se apagando, e apenas restou de mim o que agora sou. Algo que vagueia. Meu ódio é tão grande que necessito agora, quase como se fosse uma nova vida, buscar as tuas vidas, aquelas que ocultastes de mim, as que me escondesses, me condenando a ser o que agora sou. Agora percebo que não vivestes apenas uma vez, mas muitas, que não eras apenas quem eu conhecia, mas que teu corpo apenas era uma lembrança a mais entre todas as vidas que já tivestes. Em todas elas, de algum modo, já me matastes, ou de amor ou de compaixão. Sempre fui tua vítima, sempre fosses minha algoz.

Por ora já te encontrei algumas vezes, mas por mais que eu fizesse, sequer notasses minha presença. Te busquei na tua casa, na odiosa casa onde fazes jantas amorosas para tua família, onde teu homem se refestela em teu corpo macio e delicioso que já me pertenceu. Fostes tu que me mandastes matar, por puro medo. Medo de perder o teu homem, os teus vestidos, os teus broches, as tuas jóias; medo de perder teu filho, de ver escapar entre tuas mãos adoráveis o que conseguistes graças às tuas seduções.

De onde estou, posso ver tudo, inclusive o que pensavas e pensas de mim. As tuas preocupações quanto a ligarem minha morte à tua pessoa. Ah, se eu pudesse gritar! Se pudesse ser ouvido! Todos saberiam como és vil, maliciosa, como usas de teus maneirismos para conseguir o que queres, quanto és capciosa e quanto o ardil habita teus seios e tua mente insidiosa! Mas, de onde estou, ninguém me ouve. Mais uma vez estou só.

Desloco-me entre as paredes de tua sala, te vejo dormir. Quanto a mim, não durmo mais, não descanso, não amo, não falo nem sussurro e apenas o ódio me nutre, me deixa rígido como uma pedra. Não tenho fome, nem sede; não tenho compaixão nem solidariedade. Sou uma essência de tormenta, sou um ser sem qualquer ligação com o mundo e se não passo de uma lembrança mais ou menos chorosa para os meus, devo isso a ti, que encomendaste a minha morte, e pagou a mão do assassino.

Não havia amor entre nós, isso nunca houve, apenas paixão, desejo, vontade de sexo, como se fossemos dois animais. Éramos assim, dois corpos que vadiavam juntos durante o tempo que podíamos. Uma unidade é o que éramos. Houve, contudo o momento em que nos separamos; e daí para diante te recusastes a me receber e a sequer falar comigo. De amante passei a ser temido, porque te poderia denunciar.

Aproveitei, sim, – claro! – aproveitei a situação: passei a te extorquir dinheiro, para gastar com outras e para te humilhar. Me suplicastes, lágrimas nos olhos (grande hipócrita!) para que eu te deixasse em paz, mas não te escutei e, de novo, te tomei o corpo e mais um pouco de teu dinheiro. Foi a última vez das muitas em que te possuí, mas estavas apenas entregando teu corpo, pois tua mente não mais era minha.

Então me mandaste matar. Tudo quanto passei, apenas uma certeza me acorre: vais pagar. É o que me embala, o que me nutre, o que me espanta e me acalenta: tomar a tua vida como mandastes tomar a minha. O que me poderia impedir é o sentimento que te devotei, mas, como tu mesma, ele era falso. Sempre fomos falsos, mentirosos, subreptícios, maldosos.

Não sei qual de nós é o mais falso, mas o brilho do meu ódio não. Esse, sem dúvida, é verdadeiro, como verdadeiro era o brilho da lâmina que me feriu e que me pôs aqui, absolutamente só, tão amargamente triste como uma pequena ferida a ferro e fogo, que não cicatriza. Somente me sustenta a tua lembrança e, alegre, já planejo, aqui, minha derradeira vitória.

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13
Ago15

A tatuagem

por Hilton Besnos

Hilton Besnos

Para Lisley Nascimento

Há tempos que eu queria tatuar-me e, pensando se deveria ou não fazê-lo, refleti nas inesperadas conseqüências de se falar com a pele. Porque tatuar é falar, não é?Não tenho com quem conversar, mas uma tatuagem poderia dizer o quanto me sinto sozinho. Penso… será que eu e minha tatuagem conversaremos? Essas cicatrizes não me deixarão ainda mais só? Não freqüento a mídia, nem as galerias de arte; não sou político, nem jogador de futebol, portanto, esse desejo não é umnenhum golpe publicitário. Minha decisão de tatuar-me reside apenas na vontade de não afastar, nem que seja por um pouco, a solidão na qual estou prisioneiro.

Sou um homem que, amadurecido,já viveu o bastante para saber que o tempo não apenas devora tudo, mas, especialmente, vai apagando algumas memórias que me são muito caras. Sinto que progressivamente minhas recordações me abandonam, como me abandonaram os filhos, um a um.

Cada um deles possui suas razões, cada um deles também tem sua família. Os netos, igualmente, pouco me vêem. É claro que nas datas festivas fazem o possível para olhar o pai, o avô, e homenageá-lo, cada um de seu modo. Quando as festas se vão, igualmente eles partem, como o movimento contínuo das marés; eu fico aqui, imerso em meus pensamentos que também, a cada dia, mais se ausentam das minhas percepções.

Continuo elegendo um espaço de tempo para a leitura, pois até mesmo o computador, que manejava com uma certa destreza, atualmente me enfada. Minha velha paixão pelos livros retornou há cinco, seis anos… Prefiro sentir o cheiro das capas e de suas folhas do que a da luz infinitamente gélida de um monitor. Os livros me devolvem algumas de minhas memórias, me mostram que ainda estou vivo. Mas afinal, quando se está só, está-se realmente vivo?

Aposentei-me há muitos anos. Minha amada se foi antes de mim e dela são as minhas recordações mais prementes. O seu cheiro, suas risadas e mesmo seus amuos. Construímos uma história tecida de sonhos, de belezas entremeadas aqui e ali de alguns desapontamentos e mesmo de desilusões. Quando, à noite, mergulho em meus sonos breves e entrecortados, seu rosto e seu sorriso é o que mais vem se juntar a mim. A morte que levou-a e acabou com minha paz fez-me intuir que deveria preparar-me para encontrá-la. No entanto, passaram-se anos e nada mais tenho a reconstruir, senão a sua ausência. Quando as noites caem, muitas vezes apanho meu carro(ainda dirijo, posso garantir) e circulo sem rumo pela cidade. Todos me alertam quanto aos riscos que corro, mas, de certo tempo para cá, não sei se faria tanto mal ser surpreendido por algum perigo…

Numa noite dessas, sentei-me diante da tela fria de um computador. Num desses sítios de busca, lancei de pronto “tatuagem”, o verbete “tatuagem”. Há sete anos esse verbete me persegue e me assombra. Digo, também, que há sete anos esse verbete me instiga a escrever no corpo, um nome. Muito calmamente pensei, arquitetei, escolhi a melhor pele do meu corpo cansado.Tatuar-me? Há alguns meses, na Cultura, deparei-me com um capa vermelha de um livro que me parecia convidativo. O corpo em performance… Resolvi me tatuar. Inscrever o nome de minha amada sobre meu corpo de modo que jamais pudesse esquecer. A cada vez que lesse o que em minha carne ficaria gravado, retornariam as memórias, os beijos, as pequenas rusgas, e , com o recordar viriam, também, a infância dos filhos, os momentos que me orientaram como pai, os pequenos movimentos que fazemos diuturnamente e que são devorados com o romper dos anos. Viveria tudo de novo.

“Tatoo Press”, what that means? pensei eu quando entrei no ambiente acanhado, mas imensamente iluminado, onde exibiam-se desenhos e alguns posteres improváveis na parede. Imprensa tatuada? Não sei precisar se estava correta a minha literal tradução do inglês. Uma bela moça veio me atender, certamente, pelo sorriso, entendi que  ela pensava que, inadvertidamente, eu havia entrado na porta errada… “Não”, eu disse “eu quero tatuar a minha pele.” O espanto traduziu-se, em princípio, por um alçar de sombrancelhas, que emolduravam belos olhos castanhos. “Sim, quero fazer uma tatuagem, enfim, saber os detalhes, o que é necessário, quanto custa, etc”.

Dias depois eu tinha uma inscrição no meu antebraço. Mandei fazer um coração, como uma moldura. Dentro, o nome da minha amada e, abaixo do conjunto, emoldurado por uma lua azulada, o nome de dois locais de minha intensa recordação afetiva. Se senti dor? Claro que sim! Mas, de certa maneira, a dor é uma amiga que á me acompanha pela vida… mais próxima nos últimos anos.

Imagino, entre curioso e divertido, o que meus filhos e meus amigos irão dizer quando testemunharem a minha morte, quando enfim eu me for, e, só nesse momento, poderem ver minha tatuagem. Não contei para ninguém que me tatuei e guardo, comigo, como um mapa do tesouro, as pequenas cicatrizes coloridas na minha pele. Um derradeiro segredo, uma fonte de volúpia. Apenas quando me banho revelo para mim mesmo as marcas que mandei fazer em meu corpo. Converso de vez em quando com essas inscrições como se fossem uma amiga cálida, como se elas sempre tivessem estado ali.

De certo modo, a conversa com minhas tatuagens mantém minha mente ativa, porque na escuta… É um espelho que me recorda, ainda, o que de melhor em minha vida eu experimentei e disso eu posso contar. Dia desses, calor abrasivo, voltei à Cultura e procurei o livro que me deu a idéia da tatuagem. Lá estava o artigo na página 97, “Tatuagens e cicatrizes: performances narrativas na contemporaneidade”. A autora, das terras distantes de Minas, Lyslei, Lyslei Nascimento, nascimento… Que nome estranho para se ter em Minas…

Em casa, com o livro a minha cabeceira, adormeci e parece que não sonhei… Quando o dia nasceu, demorei-me ainda a contemplar o pequeno livro vermelho e, junto a ele, minha inconcebível inscrição. Após tantos anos, nunca me sentira tão bem.

 

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