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13
Ago15

Jornalismo de horrores

por Hilton Besnos

FONTE OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed827_jornalismo_de_horrores MÍDIA SENSACIONALISTA

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 02/12/2014 na edição 827

 

Gentil e visceralmente, o poeta Eugênio Giovenardi propõe versos para melhor alertar a Humanidade sobre os perigos comportamentais oriundos do distanciamento da sensibilidade, levando, por exemplo, pessoas a cometerem atrocidades violentas que prejudicam a qualidade de vida no mundo. No livro Ventos da alma (2003), especialmente nos poemas “Preocupações” e “Horrores cotidianos”, Giovenardi destaca criticamente o peso da violência simbólica (mãe da violência física) promovida pelo jornalismo sensacionalista.

Cada agente midiático é responsável por aquilo que diz/escreve, num nível existencial em que nossos compromissos éticos, políticos e estéticos encontram-se e ligam-se estreitamente. Ao naturalizar a tristeza, a “imprensa marrom” contribui para a transformação do horizonte colorido em totalidade cinzenta, fazendo-nos crer que a felicidade é um tipo de “impossível desnecessário”, projetando, assim, um “efeito estufa” no qual o trágico é alçado perigosamente como resumo mais apropriado do humano.

No primeiro poema assinalado, Giovenardi utiliza o recurso daenumeração gradativa, negativamente condicionada a processar automaticamente a realidade social como se ela fosse um mero conjunto de quinquilharias atitudinais ordinárias. O cotidiano é empobrecido por conta da ausência do sublime, favorecendo a proliferação nefasta doimpério do grotesco:

“O juro da caderneta,/ a flutuação do dólar,/ a conta da luz,/ a antena da tevê,/ o mau humor da empregada,/ as bebedeiras do caseiro,/ a ausência dos amigos,/ a superficialidade das telenovelas,/ a indiferença dos funcionários/ do Correio e da Telebrasília./ As queimadas criminosas e primitivas,/ os alarmes dos carros,/ os cavalos de pau/ e os pegas noturnos,/ os meninos de rua,/ os cuidadores de carro,/ os ladrões de banana,/ os anões do congresso,/ os políticos ladinos,/ os corruptos insignes,/ as falas do presente,/ os protestos inúteis do cidadão,/ as imunidades da corte,/ as impunidades legais./ Brazagallo, brazico, Brasil,/ o imenso carnaval continental,/ a irresponsabilidade geral.”

Muros antissociais

Interessa-nos, de perto, perceber como o poeta apela objetivamente para o meio descritivo no sentido de melhor dissertar sobre a pequenez de nossas preocupações que impedem a experiência da vida em plenitude. Considerar tudo o que se passa como mínimo também prejudica a sensibilidade humana como linguagem afetiva capaz de acolher as sutilezas variadas, conforme a natureza específica e relacional de cada matéria. Cair no conto da mesmice é, assim, perder de vista o que de maravilhoso acontece, aceitando o enfadonho como única instância do real. Nesse sentido, “a antena de tevê” e “a superficialidade das telenovelas”, segundo Giovenardi, fazem parte da lista de fatores negativos que rebaixam ou inviabilizam a nossa potência de agir, mirada na qualidade estética (a procura do belo) e ética (a procura do bem).

Crescem, desse modo, os “horrores cotidianos”, em progressão assustadoramente geométrica. Assim, Giovenardi, no segundo poema citado, prossegue em seu empenho de defender a dimensão afetiva como potência de transformação expansiva. Infelizmente, a imprensa sensacionalista vem se colocando como promotora de muros antissociais, desestimulando consequentemente a construção de pontes comunitárias que possam, de fato, ligar todas as fontes subjetivas de onde brotam todas as riquezas substantivas:

“Incêndio na favela de Heliópolis,/ explosão do shopping de Osasco,/ matanças nas periferias/ de qualquer cidade,/ chacinas no centro de hemodiálise/ de Caruaru./ Mortes em massa na casa de velhos/ Santa Genoveva,/ chacina de sem-terra/ em Corumbiara e Eldorado/ de Carajás./ Sangue, choro, desespero,/ velórios coletivos, solidariedade,/ heroísmo, passeatas, protestos,/ discursos, promessas, fotografias,/ reportagens ao vivo,/ quase anunciadas,/ quase programadas./ Silêncio! enterro das vítimas./ Esquecimento./ Até daqui a pouco./ Até a próxima.”

Violência com indiferença

Está projetada nestes versos uma realidade editorial concreta: a mídia e sua “necrofilia insaciável”. Os destaques jornalísticos oferecem prioridade à melodramatização de um discurso que parece fascinado pelo sangrento e o macabro. Desponta, no jornalismo sensacionalista, a cultura do fait divers (introduzido por Roland Barthes, no livro Ensaios Críticos, em 1964), formado por um mosaico noticioso de ocorrências escandalosas, curiosas e bizarras que, desde o início da imprensa, dão o tom editorial mais apelativo, visando chamar a atenção da audiência. Em ritmo industrial galopante, o mercado noticioso não pode parar. Ele é marcado por fatos que se esgotam, quando cumprida a sua missão efêmera, e que, em seguida, devem ser destruídos: fisicamente, diz-se que os jornais do dia anterior “servem apenas para embrulhar peixe”; psicologicamente, sua memória será substituída por uma novidade no dia seguinte.

O triunfo do jornalismo sensacionalista sobre o jornalismo de reflexão contribui para a atitude passiva de muitos setores da sociedade em relação à violência. Trata-se de um sistema perverso que sobrevive às custas da produção, em larga escala, da “mercadoria da crueldade”, conforme termo cunhado pelo professor Adélcio de Sousa Cruz, emNarrativas contemporâneas da violência: Fernando Bonassi, Paulo Lins e Ferréz (2012). A insensibilidade, frente aos fatos, se agiganta, conforme o alto volume de frases de defeito moral conferidas pela criminosa imprensa do trauma. Bestificados com o teatro de horrores, transmitido diuturnamente pela mídia, fecham-se os olhos para as mazelas do mundo. Tudo em prol de frivolidades que promovam um generalizado escapismo alienador e maléfico. Um atentado à vida deixa de ser preocupante – eticamente falando – por razões de alteridade anestesiada. Muito bem ilustra esta tendência rudimentar a canção De frente pro crime (1975), composta por João Bosco e Aldir Blanc:

“Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de um rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém/ O bar mais perto depressa lotou/ Malandro junto com trabalhador/ Um homem subiu na mesa do bar/ E fez discurso pra vereador/ Veio camelô vender anel, cordão, perfume barato/ E a baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira/ E a moçada resolveu parar, e então…/ Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de um rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém/ Sem pressa foi cada um pro seu lado/ Pensando numa mulher ou num time/ Olhei o corpo no chão e fechei/ Minha janela de frente pro crime.”

Um dos maiores agentes difusores e produtores da violência, o fazer sensacionalista povoa o jornalismo de palavras espinhosas, impedindo que a sociedade reconheça seus membros como seres floridos e capazes de oferecer ao mundo o “mel do melhor”. O fel do pior, elevado midiaticamente à enésima potência, provoca um fenômeno extremamente perverso: a “banalidade do mal”, como diria Hannah Arendt. Na “imprensa marrom”, as palavras ficam sobrando, pois não fundam vínculos sociais, não esclarecem mentes e corações, não atraem relações sensíveis e não acrescentam nada de dignificante para a humanidade. Sabemos que a realidade humana encontra-se fundamentada segundo os princípios do bem e do mal, do aperfeiçoamento e da destruição. E para darmos conta desta composição ambivalente, precisamos nela mergulhar mediante a palavra pensada, a palavra consciente.

No sensacionalismo, a palavra escandalizada e pisoteada dá o tom do barulho frenético midiatizado grosseiramente, beneficiando o modelo apressado de cobrir a realidade jornalisticamente. No beco escuro das redações, explodem a violência com indiferença. A respeito, já alertava Carlos Drummond de Andrade, em Poema do jornal (1930):

“O fato ainda não acabou de acontecer/ e já a mão nervosa do repórter/ o transforma em notícia./ O marido está matando a mulher./ A mulher ensanguentada grita./ Ladrões arrombam o cofre./ A polícia dissolve o meeting./ A pena escreve./ Vem da sala de linotipos a doce música mecânica”.

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários.

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5 truques de lavagem cerebral que funcionam, não importa quão inteligente você seja

 

Publicado em 7.04.2015

 

O mundo está cheio de pessoas que sofreram lavagens cerebrais e fizeram coisas absurdas, como se matar ou matar a outros. É claro que isso nunca vai acontecer com você, que é bem educado e inteligente, não é mesmo?

Exceto que não funciona assim. Mesmo os mais espertos estão sujeitos a apoiarem causas não tão espertas, por conta de coisas como:

5. Ideias não importam – as pessoas só se preocupam com o que “funciona”
Cientologia é um conjunto de crenças e práticas relacionadas a autoajuda. Enquanto seus cursos incluem conselhos interessantes, a cientologia também ensina que o governante do mal Xenu congelou bilhões de vítimas e escondeu-as em vulcões da Terra.

Por que cargas d’água as pessoas abraçam essa e outras mitologias aparentemente bizarras? Bom, porque tem coisas na cientologia que funcionam. Por exemplo, eles recomendam que as pessoas se concentrem em completar uma tarefa rapidamente e corretamente, esquecendo-se de todas as outras coisas que também precisam fazer. Então, uma vez que essa tarefa for concluída, as pessoas têm a confiança para avançar para a próxima e conseguem fazer tudo que querem.

A cientologia não inventou isso – provavelmente só adaptou essa ideia de tantas outras que existem e que funcionam há séculos. Mas aqui está a chave: quando um cientologista (ou qualquer outra pessoa que tenha qualquer outra crença) diz que isso funciona, é verdade. Funciona. A mitologia adjacente já não é tão importante – se dizem que a técnica funciona por causa de seres pequenos alienígenas que vivem dentro do seu corpo, beleza por você. Isso não muda nada.

Nós não temos espaço no cérebro para manter o controle de como tudo no mundo funciona – por isso, não estamos interessados em explicações científicas complexas sobre por que aqueles conselhos dão certo. Você pode se sentir superior a um cristão que não acredita em evolução, por exemplo, mas em algum lugar há um engenheiro que se sente superior a você por você não saber como funciona o seu iPhone. No fim das contas, a realidade é que você não sabe como o seu iPhone funciona porque saber isso não iria mudar o seu uso desse objeto no dia-a-dia. Da mesma forma, pensar que a Terra tem apenas 6.000 anos de idade não muda muita coisa no seu dia-a-dia, mas outros conselhos, como ter autodisciplina e paciência, podem de fato ajudá-lo, então você aceita o pacote inteiro e prontoacabou.

E SIM, todo mundo FAZ ISSO.

 4. O outro lado é sempre pior

Você está assistindo O Senhor dos Anéis. De um lado da batalha, tem essas pessoas:

Do outro lado, tem isso:

Para quem você torce? Fácil. Se amanhã você topasse com um grupo de caras em um beco lutando contra orcs, você iria se juntar aos caras, sem sequer perguntar sobre a natureza da briga. Não importa – você iria lutar ao lado dos humanos, mesmo que eles fossem neonazistas.

É isso que acontece com a maioria das pessoas que você vê lutando por uma causa realmente terrível ao lado de pessoas terríveis: elas estão fazendo isso porque pensam que estão lutando contra um inimigo que é pior ainda.

As pessoas definem-se principalmente pelo que odeiam. É mais comum ouvir alguém falando mal de Bieber do que defendendo sua banda preferida, ou xingando um candidato político do que exaltando outro.

A verdade é que um grupo de pessoas de fato alimenta a adesão a outro grupo de pessoas com ideias opostas e há uma relação simbiótica estranha entre esses dois “lados”, que é o que garante a sobrevivência de ambos.

Esse também é o motivo pelo qual as pessoas sempre atribuem características negativas a seus “inimigos” que não são de fato relacionadas com quem elas discordam. Por exemplo, não é o suficiente dizer que os antifeministas estão errados ou equivocados; temos que dizer que eles são gordos frustrados assexuados (então a resposta desses gordos frustrados assexuados é que feministas são mulheres irritadiças e fracas ou homens efeminados). Os conservadores são caipiras ignorantes, os liberais são hippies sonhadores, e assim por diante – essa é a chave para manter o foco sempre em quão desumano o outro lado é, de modo que nunca temos de olhar para nossos próprios umbigos.

Nós vamos desculpar qualquer coisa dentro do nosso próprio movimento, porque não importa o quão errado, bisonho ou ilegal ele seja, pelo menos nós não somos orcs.

3. Pertencer a um grupo importa mais do que ter uma opinião sensata

Se você chegar em casa e ver um estranho batendo em sua mãe, você não vai perguntar: “Senhor, qual é a natureza de sua disputa? O que ela fez para você?”. Não, você vai pegar uma faca e mergulhá-la nas costas desse filho da p***. Naquele momento, a lealdade a sua mãe supera qualquer outra coisa.

Da mesma forma, se você conversar com alguém que esteve em uma guerra e perguntar-lhe como ele conseguiu fazer tudo o que fez, a pessoa provavelmente não vai dizer que foi o seu amor pelo país ou sua crença na causa (muitos soldados nem sequer podem articular a razão que levou às batalhas nas quais lutaram). Não. O soldado certamente vai responder que aguentou firme pelo cara que estava do lado dele. Ele precisava ajudá-lo, do mesmo modo que o colega o estava protegendo também. É assim que as pessoas em guerras sobrevivem e não pensam no que estão fazendo – porque precisam cuidar umas das outras.

É também a razão pela qual nós gostamos de torcer por equipes esportivas, é a razão pela qual adolescentes formam panelinhas e é a razão pela qual as pessoas se unem a gangues.

Queremos pertencer a um grupo, uma “tribo”. Desde que essa tribo não tenha qualquer crença que seja absolutamente repulsiva para você, qual é a crença em si não importa. Por exemplo, um ex-neonazista já contou que se juntou a um grupo de skinheads antes mesmo de saber que eles eram skinheads. Antes apenas um grupo de pessoas que saíam juntos, foi como se eles tivessem decidido um dia que agora odiavam judeus. E esta é a chave: se alguém aparecesse e falasse para esse ex-neonazista que seus amigos eram idiotas vendedores de ódio, ele teria ouvido isso como uma crítica às pessoas mais próximas a eles. “Vendedores do ódio?!? Eu confio nos meus manos com a minha vida!”.

“Mas”, você insiste, “eu nunca odiaria todo um grupo étnico de pessoas só para agradar meus amigos!”. Talvez não, mas há maneiras mais sutis de ser arrastado para dentro de um grupo sem concordar totalmente ou sequer entender suas ideias e crenças. Seja honesto: você provavelmente nem conhece todas as propostas que seu candidato político fez, e votou nele mesmo assim. Pior: o defendeu mesmo sem poder dizer o que ele defendia.

Muitas vezes, quando uma nova controvérsia de qualquer natureza surge – biscoito ou bolacha? -, a maioria das pessoas não estuda cuidadosamente a questão para descobrir como se sente e o que pensa dela. Não. Elas apenas seguem sua tribo. Frequentemente, adotam opiniões alheias como suas (porque foi meu pai que falou, ou aquele amigo que eu acho que é inteligente!). Além disso, acham que entendem de algo porque viram uma única informação vinda de uma fonte conhecida (mas não necessariamente com credibilidade), quando a realidade é que provavelmente têm chocantemente pouco conhecimento sobre o assunto o qual estão opinando.

Meu ponto não é que todo mundo seja idiota e hipócrita. Meu ponto é que nós não temos espaço em nossos cérebros para manter controle de tanta informação, e nossa primeira prioridade é pertencer a um grupo – isso garante companhia, apoio, sobrevivência. Não é culpa de ninguém, mas significa que você não vai mudar a cabeça das pessoas apenas bombardeando-as com informações.

2. Geralmente, todo mundo tem o mesmo código moral, só que o usam de forma diferente

Você se considera moralmente superior às pessoas que costumavam queimar bruxas? Eu espero que sim – essas pessoas sequestravam homens e mulheres inocentes e os executavam com base em uma superstição ridícula.

Mas e se, em uma surpreendente reviravolta, nós descobríssemos que as bruxas não apenas são reais, mas que tudo dito sobre elas é verdade? Que elas de fato têm poderes mágicos obscuros que usam para torturar e assassinar pessoas em massa? E, uma vez que são mágicas, que a única maneira de pará-las é matando-as? Quero dizer, você aplaudiu quando Voldemort morreu, não?

Tá-dá! Fica claro que você não é, necessariamente, mais tolerante do que os caçadores de bruxas – você apenas não compartilha de sua crença em bruxas. Seu código moral pode de fato ser exatamente o mesmo do deles – você só discorda sobre esse fato em particular. E fatos podem estar certos ou errados, mas não podem ser morais ou imorais.

É isso que acontece em praticamente todo debate político. Ambos os lados concordam com o princípio moral de que a tirania do governo é ruim. Eles simplesmente discordam sobre se os ideais de um ou de outro são um exemplo de tirania do governo.

Mas não conseguimos ver claramente essa questão moral. A fim de preservar a narrativa “bem contra o mal”, muitas vezes as pessoas decidem que o outro lado do debate está simplesmente mentindo sobre o que acreditam. “Os caçadores de bruxas nem sequer pensavam que bruxas existiam, eles só queriam uma desculpa para mutilar mulheres!”.

Isso é sem dúvida verdade em alguns casos, mas não na maioria. Isso não impede ambos os lados de desejarem acreditar que o seu inimigo é realmente pior. Só não é o caso. As pessoas de lados opostos de certas questões na verdade geralmente possuem os mesmos valores morais, embora possam priorizá-los de forma diferente.

Se você quer um exemplo cotidiano disso, basta pensar naquele amigo chato que é excessivamente franco com suas opiniões, arruinando o bom humor alheio por onde passa. Não é que ele seja imoral; é que ele está priorizando um valor moral (honestidade) em detrimento de outro (minimizar danos emocionais). E torna-se ainda mais difícil odiá-lo quando você percebe que ele está realmente fazendo escolhas morais corajosas todos os dias – ele pode ter tomado uma decisão angustiante de dizer que sua camisa parece algo que um urso cagaria depois de comer um palhaço porque viu isso como a coisa “certa” a fazer, de acordo com sua moral interna. Provavelmente, é o que ele gostaria que você fizesse por ele, caso um dia ele usasse uma camisa que parece algo que um urso cagaria depois de comer um palhaço.

1. A maioria das pessoas caem em sua “tribo” por acidente

Se você procurar livros que explicam por que as pessoas brancas são a raça superior do mundo, você vai encontrar uma coincidência surpreendente quando olhar para os seus autores: eles são todos brancos.

Louco, não? Qual a probabilidade???

Ano passado, a revista TIME fez um experimento no ano passado onde antecipou com precisão as convicções políticas de americanos apenas pedindo-lhes que respondessem uma série de perguntas completamente não políticas, como “Você prefere gatos ou cães?” e “Seu espaço de trabalho é organizado ou bagunçado?”. Outro estudo descobriu que você pode antever a posição política de alguém estudando como seu cérebro processa riscos.

É. Não é difícil prever o grupo no qual uma pessoa pensa que se encaixa. Geralmente, elas acreditam que a pior característica que uma pessoa pode ter é justamente algo que para elas é fácil não ter. Por exemplo, muitas pessoas em forma acham que os gordos são “lesmas preguiçosas” – para elas, as pessoas não estão no mesmo nível que elas por culpa própria. Muitos ricos também pensam que pobres são inferiores por serem vagabundos que não querem trabalhar ou estudar. E daí por diante.

Tudo isso pode parecer preconceito – e provavelmente é -, mas assim que é a vida: você apoia os grupos dos quais você por um acaso faz parte. Você pode pensar nisso como sua “Configuração de Padrão Moral”, e ela é em grande parte determinada por onde você nasceu, como você foi criado e em qual grupo de amigos você caiu.

Se você quiser ver sua Configuração de Padrão Moral em ação, imagine que você e sua mãe foram visitar um país estrangeiro. Na entrada, eles exigem que todas as mulheres removam suas camisas e sutiãs para que possam ser fotografadas para fins de identificação. Você acha isso nojento e misógino – secretamente, eles só querem ver tetas e são uma cultura estranha e machista.

E, no entanto, quando mulheres muçulmanas levantam essa mesma objeção quando precisam remover suas coberturas de cabeça para fotos de identificação em países estrangeiros, nós dizemos que SUA cultura é primitiva e misógina – porque as suas regras arbitrárias sobre quanto do corpo de uma mulher deve ser coberto em público são lógicas e respondem ao bom senso, enquanto as dos outros são o resultado de superstição e loucura.

Na realidade, ambos estão apenas reagindo ao seu “Ambiente Moral Padrão”, como se fosse uma verdade absoluta proferida na criação do universo. Que outras pessoas têm diferentes padrões – e acreditam neles tão fortemente quanto você – é um fato quase impossível de compreender.

 

Admita: você secretamente tem certeza de que se tivesse vivido no Brasil escravo como um homem branco, teria sido um dos mais não racistas. Você também teria sido um dos jovens alemães que não foram sugados por Hitler. Ao imaginar-nos transportados para outro tempo e lugar, nós sempre assumimos que nosso Ambiente Moral Padrão de alguma forma viaja com a gente, porque não podemos conceber uma vida sem ele.

E esse ambiente é o que faz com que seja praticamente impossível realmente entendemos e respeitarmos uns aos outros. Quando você tenta fazer com que alguém desvie de seu próprio padrão, meu amigo, é quando todos os outros itens nesta lista reúnem-se em um único Power Ranger para se opor a você. Você está pedindo a ele para A) abandonar o que funcionou para ele até agora, B) deixar os bastardos maléficos do lado oposto ganharem, C) trair seus amigos e D) abraçar o que ele vê como imoralidade.

Muitas pessoas preferem, literalmente, morrer do que desviar de sua Configuração de Padrão Moral, também conhecido como mudar de opinião. [Cracked]

Autor: Natasha Romanzoti

tem 25 anos, é jornalista, apaixonada por esportes, livros de suspense, séries de todos os tipos e doces de todos os gostos.

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Fonte: Convergência

http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=2821

janeiro 28th, 2015 

Betto della Santa

Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política – de Norberto Bobbio, filósofo italiano mundialmente reputado – teve tradução brasileira lançada apenas um ano após sua aparição na Itália, pela Editora Unesp, sob prefaciação de Marco Aurélio Nogueira poucos anos após a queda do Muro de Berlim. O que o projeto intelectual de Bobbio intendia, e seus congêneres brasileiros emulavam, era o que no mundo da política se consagrou como a síntese, por assim dizer, entre liberalismo, por um lado, e socialismo, por outro. O livro ganhou o mundo.

Para Além da Esquerda e da Direita: o futuro da política radical – de Anthony Giddens, conhecido sociólogo acadêmico britânico –, sob tradução de Alvaro Harttnher, pôs em circulação (pela mesma editora) uma obra surgida no contexto efetivo do mesmíssimo 1994, na Europa ocidental, tão-só um ano depois. A tradução da tradição seria reinventada por Giddens, e encontraria sólo fértil para uma versão tropical no Brasil, sob o codinome de guerra do que viria a ser a “Terceira Via” ou um neosocial-liberalismo. Tal qual dizem os italianos; tradutor, traidor.

A coincidência espaço-temporal (e suas respectivas aclimatações) impõe uma reflexão crítica. Se no compêndio universitário Anthony Giddens meneia a cabeça para fora do campus ensaiando pisar o palácio de governo, sob signo de uma velha-nova “revolução sem revolução”, é Norberto Bobbio quem vai exprimir um corpo de ideias vigoroso e claro o bastante como para merecer ser lembrado até hoje. Vinte anos após sua primeira publicação no país e passados já mais de dez anos de governos dirigidos pelo Partido dos Trabalhadores vale a pena ver de novo…

Esquerda, volver

Antonio Gramsci estabeleceu que o quantum máximo de consciência possível dos grupos sociais fundamentais na sociabilidade capitalista, i.e., os proprietários não-trabalhadores e os trabalhadores não-proprietários (ou exploradores e explorados), seriam, justamente, o liberalismo e o socialismo; enquanto as suas quotas mínimas, ou de maturação ainda “embrionária” – e “molecular” –, seriam, nas suas expressões mais baixas, o protecionismo por um lado, e o corporativismo por outro. Mas, e Direita e Esquerda, onde entrariam? Palavras têm história. E a história dos homens não tem sido outra senão a história das lutas de classes. Ora, senão, vejamos.

Esquerda, já o sabemos, trata-se de uma noção operativa e, sobretudo, relacional. Isto é, uma posição no interior de um Spectrum, a qual se referencia a partir de outras posições. Os significados – e as razões – da noção de Esquerda remetem, necessariamente, a Direita e a Centro; divisões que retém relevância, até hoje, ainda e quando a localização e a fronteira de cada uma esteja longe de ser fixa. A origem desse termo é sobejamente conhecida. É relativa à Revolução Francesa – marco histórico da política moderna – durante sua Assembléia Constituinte. Quão mais próximo/distante do piedoso ideal de igualdade social, mais Esquerda/Direita ser-se-ia.

Quer seja pelo pressuposto teórico conceitual – individual e social, respectivamente – ou pelo conflito histórico concreto, entre quem possui e governa e quem trabalha e é governado, liberalismo e socialismo representam politicamente irreconciliável antagonismo social. O escriba italiano considera o igualitarismo real impossível (“desigualdades naturais existem e, se algumas delas podem ser corrigidas, a maior parte não pode ser eliminada”; BOBBIO, 1995, p.102) ou improvável (“podem ser apenas desencorajadas”; idem, ibidem) porque, para ele, a defesa da superação de todas desigualdades seria resultado de uma “visão utópica (…) mas, pior do que isso, uma pura declaração de intenções, à qual não pareceria ser possível adjudicar … sentido razoável.” (idem, p.100.)

De raiz

Reanudar o núcleo vivo dessa contradição real – ou a dilaceração societária em classes – é tomar distância da letra do texto e do projeto político delineados por Bobbio. Uma esquerda digna desse nome deve começar por se lembrar que no princípio, antes do verbo, está a ação. Para uma esquerda que não abandonou a perspectiva revolucionária ousar dizer seu nome não é mais que um começo. Mas pode ser um bom começo. Inclusive, mesmo, bom começo de prosa. Se tradicionalmente Esquerda e Direita remetem a um sistema topológico de fronteiras móveis há algo para além (ou aquém) de desenhar a linha divisória. Algo quiçá mais antigo, subterrâneo.

Depois de confrontadas as relações passadas e presentes de uma distinção política entre Direita e Esquerda, e após aludir ao corajoso – muito embora autolimitado – e combativo título de Vladimir Safatle (2012), uma questão permanece em aberto. Para além de responder o que é Esquerda seria, no mínimo, importante, perguntarmo-nos o que a Esquerda é. Uma escavação arqueológica a contrapêlo da história das ideias se faz, aqui e agora, necessária. Há nas palavras Direita e Esquerda algo mais à contracorrente do quê, já pura e simplesmente, uma posição relacional nos vestibulares debates do parlamento, no processo político-social francês do Séc. 18.

O radical que une radicais, cujo substrato mais fincado remonta ao principio igualitarista, sejam eles anarquistas coletivistas, socialistas revolucionários ou comunistas internacionalistas, não deixa de ser o mesmo, nos mais distintos idiomas. Os vocábulos anarquismo, socialismo e comunismo permanecem similares em português e espanhol, inglês ou francês, alemão e russo; mas são usadas palavras muito diferentes para referir-se à esquerda: linke, gauche, Left etc. Com um juízo implícito, de sabor libertário, poder-se-ia concluir que, enquanto a Esquerda nos divide, anarquismos, socialismos e/ou comunismos são de fato, mais que por direito, aquilo que nos une.

“Gauche na vida”

Carlos Drummond fala de um anjo torto que lhe teria vaticinado ser “gauche na vida”. “Let’s play that”, de Torquato Neto, re-cita a referência drummondiana, como a necessidade férrea de “desafinar o coro dos contentes.” Apesar da forma de palavras tão manifestamente diferentes entre si – nas mais diversas línguas – há, nelas, algo de latentemente identitário: a obscuridade e/ou ubiqüidade de um sentido latente ao respectivo conteúdo. Left deriva da raiz Anglossaxã Lyft; Fraco; Débil. Já Sinistra, do Lat. Sinistrum, deriva de Mal; Infortúnio. O bem-aventurado seria “Ambidestro”, qual seja, habilidoso, com as duas mãos, isto é, as mãos Direitas.

Droit, Right, derecho, rechte, destro ou dret, o Direito, para que nos façamos destros e claros, tem significação a mais unívoca e positiva: a Retidão, as Leis, o Certo. Todo contrário de Canhoto o qual, aliás, tem de se adaptar a uma realidade espelhada, que se apresenta ao avesso, impondo-se-lhe um mundo invertido. Historicamente, em várias regiões do mundo, o lado Esquerdo, e em especial, o Canhotismo manual, foram considerados, essencialmente, negativos. Direito/Direita seriam a Autoridade/Justiça, Propriedade/Legitimidade, Autenticidade/Realidade. As associações de direito à Direita, e da direita a Direito falam, eloqüentemente, a esse respeito.[1]

As trilhas de tais considerações remontam linhagens da antiguidade clássica e passagens das mais remotas civilizações antepassadas. “Eres tan Zurdo”; “To have two Left feet”; “S’être levé du pied Gauche” e, enfim, “Que Canhoto/Canhestro!”, são sinônimos para o contrário do Bem e do Bom. As associações desfavoráveis – e/ou as conotações negativas – da utilização da mão esquerda entre diferentes culturas são variadas. Em algumas regiões, a fim de se preservar a limpeza pessoal quando o saneamento era problema de difícil solução, a mão direita, enquanto mão predominante na maioria dos indivíduos, foi utilizada para comer, manipular alimentos ou interagir socialmente. A mão esquerda era usada para a higiene sobretudo pós-micção/defecação.

Ezkerr, um nome próprio

No islamismo é costume usar a mão direita, em oposição à esquerda, como a mão para se levar comida à boca. No cristianismo a direita de deus representa a mão favorecida e Jesus está sentado ao lado destro. (A esquerda, porém, é a mão do juízo. O arcanjo Gabriel fica a seu lado canhoto, e é um dos seis anjos da morte.) Na Europa do Séc. 19 homossexuais eram chamados “Canhotos” enquanto, nas nações protestantes, os católicos foram chamados “Pés canhotos”. A magia negra foi referida como “caminho à esquerda”, fortemente associada a satanismo e, em muitos lugares, “mau-agouro”. No panteão Yorubá, Esquerda alude a energias pouco iluminadas.

Gauche, Left, izquierda, linke, sinistra, esquerra, a Esquerda, tem significado canhestro. Não bastasse, na língua portuguesa, o buraco é mais embaixo. O vocábulo Esquerda/Esquerdo advem do Euskera –  idioma basco/vasconço –, Ezkerr, via Castelhano; Izquierdas. As diversas línguas nacionais da Península Ibérica – como o catalão, o galego e o castelhano; este último tão-simplesmente chamado “espanhol”, sobretudo na América Latina e/ou fora da Europa ocidental – herdaram à língua d’Euskadi – País Basco – radical comum Ezkerr: Izquierda/Esquerra/Esquerda.

Acontece que o idioma Euskera, basco ou vasconço, é justamente uma das únicas línguas vivas cuja origem é a mais absolutamente desconhecida, até hoje, dentre lingüistas, antropólogos e experts. Não pertence ao ramo filogênico indoeuropeu e tampouco tem qualquer similaridade com as estruturas lexicossemânticas / linguisticogramaticais de qualquer idioma/dialeto praticado nas proximidades e cercanias seja dos eixos Norte-Sul ou Oeste-Leste no continente eurasiático. Assim sendo, uma filologia vivente da palavra Esquerda demandaria conhecimento especializado no campo etimológico mais ardiloso da história social e político-cultural comparada das línguas.[2]

Da cultura à política, do político ao cultural

O processo histórico-social que a noção de Esquerda perquiriu até adentrar o vocabulário político moderno tem a ver com a temporalidade lenta das mais longas durações e à secular tradição do princípio igualitarista. E, acreditamos, não pode ser associado à mera casualidade o acaso objetivo de, àqueles que conspiravam contra o poder legal de veto real à Esquerda do parlamento, ter-lhes ocorrido postar-se do lado de cá e não no de lá. A relação política e cultural, com periféricos ou subalternos, deserdados da Terra e à margem da história, seria um mero azar? Uma escovação da história a contrapêlo permite, e um marxismo profano exige, tal interpretação.

Mas por que expressões como Gauchismo, Leftwing communism e/ou Ultraesquerdismo seriam taxadas pejorativas justamente entre a “esquerda da esquerda”? O Zeitgeist da época às vezes, como que de galhofa e/ou em tom de galhardia, pode soar tão zombeteiro quanto um verdadeiro espírito de porco. Longe de socialista revolucionário ou comunista internacionalista, como o eram Karl Marx e Friedrich Engels, quem se nos reconta – em tom de história oral e autobiográfica – é Renato Ortiz, um já reconhecido antropólogo cultural brasileiro. No 33º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, a (poderosa) Anpocs de-há poucos anos Ortiz tomou parte à abertura na seção solene, “Conversa com o Autor”.

Para reconstituir à sua própria demarché um jornalista político francês é parafraseado para descrever/narrar um ambiente político e intelectual em que não se reconhecia mais como Esquerda a socialdemocracia ou o stalinismo naquele 1968 parisiense: “O gauchismo é como o Sal de que fala a escritura, seu sumiço levaria a um deserto de farisaísmo e imobilidade. (…). Seu destino não é a disciplina, mas a transformação. … a recusa. (…) Privada de gauchistas uma sociedade é dirigida à asfixia.” Um burocrata sindical exclamaria alto: —“Não somos nós!” para delimitar-se de anarquistas, dissidentes e trotskistas no cortejo do 1º de Maio. Ontem como hoje toda esquerda pode parecer extrema, se vista do palácio, e soar ultra, quando ouvida do gabinete. A crítica ao cretinismo antiparlamentar e o embate à idiotia eleitoral são parte da mesma herança.

Referências bibliográficas

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados dedistinção política. São Paulo: Unesp, 1995.

SAFATLE, Vladimir. Uma esquerda que não tema dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2012.


[1] O jogo de palavras que dá nome à noção de Copyleft, em oposição a Copyright, não deixa de ser um belo exemplo.

[2] Sem qualquer pretensão de resolver a questão, por ora nos basta com saber que mesmo dentre os estudiosos há as mais diferentes versões polêmicas a respeito da genealogia do adjetivo Ezkerr. Além de uma curiosidade. Ezkerr, entre os bascos, constitui popular nome próprio. Curioso também notar que intelectuais tão perspicazes quanto Bobbio, Giddens e Safatle não tenham dito palavra sobre aquilo que, originalmente, a Esquerda quer, de fato, dizer…

 

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Seria a lei (e, por extensão, todo o sistema jurídico) um instrumento de controle social a serviço da classe dominante? Pretendemos com o presente artigo estudar sobre essa questão. O estudo da teoria Marxista é relevante na medida em que se propõe a equacionar politicamente a sociedade segundo um modelo justo de distribuição das riquezas. Até que ponto este modelo é praticável ou (ainda) até que ponto é interessante para quem está no poder?

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Karl Marx nasceu em 1818, na cidade de Tréveris, na Alemanha e faleceu em Londres no ano de 1883. Sua vida foi marcada pela militância incansável na busca de transformar suas teses em um projeto político que se implantasse na Europa e se espalhasse por todo o mundo. Em breves linhas, o pensador alemão representou um marco na defesa da implantação do Socialismo Científico, o qual considerava que se realizaria a partir do momento em que a classe operária tivesse consciência de seu papel revolucionário e conseguisse destruir por completo o modo de produção capitalista.Como bem definido na obra “O Capital”, para Marx, o Estado não é mais a realidade da ideia ética, mas violência concentrada e organizada da sociedade. Sob o prisma da teoria marxista, é preciso analisar as relações jurídicas conjuntamente aos fatores sociais e econômicos, descartando a possibilidade de uma analise unicamente formal e isolada. Assim, a economia está entrelaçada às relações jurídicas, funcionando como fator determinante das relações socioeconômicas predominantes.Para Marx, as relações jurídicas se enraízam nas relações materiais de vida, não podendo ser compreendidas sob o enfoque isolado do que são ou mesmo sob o enfoque do desenvolvimento geral da coletividade. É dele a frase: “a história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes (Manifesto do Partido Comunista, 1848).Como forma de ruptura com as estruturas sociais beirando ao caos social – em que impera a exploração do homem pelo homem, da ausência de isonomia entre membros da coletividade e desrespeito da condição humana – a teoria marxista arquiteta o governo provisório do proletariado. Uma vez que a práxis política comunista só pode ser implantada com a ruptura do sistema capitalista vigente, a iniciativa parte do explorado em dar fim ao governo dos senhores em face das classes servis.Assim, a força da revolução surge como uma resposta ao sistema que está implantado e não como uma ação originária contra o sistema. É uma reação contra algo que já está implantado, que não admite a ascensão da classe proletária ou mesmo a redução das desigualdades sociais verdadeiramente visíveis.Para Marx, o Estado funciona como mecanismo de dominação de uma classe social pela outra, como um meio de projeção política da classe dominante. Desse modo, a classe dominante tende a sufocar a classe subjacente.Como esclarece Paulo Nader (1999, p. 229), “o Estado seria também uma instituição a serviço da classe dominante, pois, além de se estruturar por modelo jurídico, é fonte criadora do Direito. A extinção das classes provocará, igualmente, a extinção do Estado”.Assim, fica evidente o enfoque de que Direito e Estado são vistos como grandes estruturas que apenas confirmam a vontade dos dominadores em detrimento dos dominados. Também o poder do Estado funciona, primariamente, como órgão de defesa dos interesses comuns da sociedade. Porém, à medida que esse poder se torna independente da sociedade, o Estado passa a ser um órgão de uma determinada classe, impondo mais diretamente o seu domínio.A luta das classes – a oprimida contra a dominante – assume um caráter de luta política. Na medida em que se desmembra da coletividade, o Estado cria uma nova ideologia. Desse modo, o Direito Público e o Privado são encarados como dois campos independentes, com seu desenvolvimento histórico próprio, campos que permitem e exigem uma construção sistemática.Para Marx, o Direito está longe de ser um instrumento para a realização da justiça, tampouco emana da vontade do povo, mas, sim, é uma estrutura ideológica a serviço das classes dominantes. Sempre que uma classe se mantiver no poder, haverá Direito e Estado.Também a propriedade não é encarada como um Direito Natural de todo indivíduo, nem como uma conquista de todos os homens em favor do equilíbrio social, nem como um meio de conceder a cada um conforme seu trabalho. A propriedade privada não é um mal em si, mas seu uso proporciona a desigualdade das classes e a exploração dos menos favorecidos, sendo vista como o ingrediente que diferencia os homens entre si, causando distorções entre as classes.A partir disso, assegura-se a manutenção dos interesses do poder e de alienação do proletariado pela “servilização” do trabalho, sendo mais uma forma de exploração. A abolição da propriedade privada, mesmo contrariando muitas ideologias, é regra comunista que possui suas razões.A participação da propriedade no comunismo a ser instaurado após a ditadura do proletariado há de ser coletiva. Assim, para todos é dado o que é de todos.Com a instauração do comunismo de bens, o homem poderia experimentar sua própria natureza como ser capaz de trabalho, uma vez que estariam ausentes a propriedade privada, o Direito, o Estado, a burocracia e a própria distribuição piramidal dos membros da sociedade.O enfoque principal da reflexão marxista está na justiça social, em que se centralizam todos os instrumentos de produção nas mãos do proletariado organizado em classe dominante, aumentando, assim, o total das forças produtivas.O estudo da teoria Marxista, portanto, é relevante na medida em que se propõe a equacionar politicamente a sociedade segundo um modelo justo de distribuição das riquezas, ainda que, na prática, tem-se percebido se tratar de um ideal, até certa medida, inatingível.ReferênciasARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico. Lisboa: Publicações D. Quixote, 2007.MUSSE, Ricardo. Fato social e divisão do trabalho. São Paulo: Atica, 2007.NADER, Paulo. Filosofia do Direito. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

 
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RENATO COLLYER

Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Graduando em Ciências Sociais e História. Formado em Direito. Mestrando em Direito. Pós-Graduado em Política e Sociedade, Direito Público, Direito Ambiental e Educação Ambiental..

 

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