Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

16
Ago15

Respeito ao professor

por Hilton Besnos

 

“Respeito ao professor” é uma frase que vem se tornando mais e mais uma reivindicação, sintoma de que o professor tem sido desrespeitado. Sou professor, embora não atue no ensino formal e oficial há quase duas décadas, e busco cumprir uma lei básica, oficial e do senso-comum, que informa que o ser humano e seu trabalho devem ser respeitados; que mesmo o não-humano e o não-trabalho devem ser respeitados. Ao contrário do que a mera repetição de slogans e a incessante proliferação de mensagens eletrônicas nas redes sociais da telecomunicação fazem parecer, não se trata de tarefa fácil nem simples. Desrespeitar, seja lá o que for, é mais comum que respeitar. Uma sensibilidade menos otimista diria que, pela sua repetição sistemática e automática, desrespeitar é que é uma lei básica; que nem sequer percebemos o quanto somos desrespeitosos.Sobre o professor pesa um desrepeito menos inocente, menos casual, a julgar pela intensidade das reivindicações que vejo e ouço por toda parte. De modo geral, são as condições de trabalho do professor, entendidas em sua dimensão mais vasta, que são desrespeitosas. Imagino que este problema esteja sendo abordado por vários pesquisadores e especialistas e que, ao contrário, o resultado das pesquisas e as recomendações especializadas não estejam sendo recebidas, discutidas, encaminhadas e implementadas, seja no ensino oficial, público, ou no ensino privado. Sei que, em boa medida, a própria legislação federal não é cumprida com rigor e, portanto, não se manifesta como realidade no sistema educacional.Eu não tenho uma solução para este problema, que, aparentemente, requer esforços hercúleos de toda parte e de toda sorte. Apenas reafirmo que cumprir leis básicas é tarefa árdua no contexto brasileiro, o que inclui o respeito ao professor. Ao escrever isto, não pretendo subestimar e diminuir a gravidade do problema que é o desrespeito ao professor. Mas é forçoso reconhecer que os desafios propostos pela educação de todos, pela educação das massas, que é uma meta relativamente recente no Brasil (considerando-se a primeira versão da Lei de Diretrizes e Bases de 1961), não têm sido vencidos satisfatoriamente. Nestes últimos 50 anos, mudanças profundas vêm alterando a forma do mundo, alterações que este complexo tecnológico-humano que chamamos de Educação vem desdenhando sistematicamente. Evidentemente, até certo ponto é possível seguir as velhas trilhas em velhas tropas sob o conforto de certa inércia (seja no âmbito das políticas públicas de educação, seja no âmbito da precária imaginação da iniciativa privada quando o assunto é Escola). Só não sei dizer até quando, pois alguma hora, eventualmente, as velhas trilhas darão em abismos que já, hoje, desenham-se claros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Ago15

Desinterecisses

por Hilton Besnos

Existem consensos, todos muito disseminados e demograficamente adensados, em torno dos significados e das manifestações das palavras “cultura” e “arte” e nenhum deles me interessa. Isto quer dizer que não tenho a menor motivação para escrever sobre estes consensos, estes dogmas, estes impensados, estes automatismos, estas inércias. Mas como tenho sentido que eles têm me assediado cada vez mais, que eles têm estado cada vez mais presentes onde eles deveriam estar ausentes, que seus portadores e propagadores querem a minha adesão, creio que vale a pena jogar fora umas poucas linhas de texto para descrever de forma incisiva e sucinta alguns destes consensos empedernidos.

Direto ao ponto. É desinteressante a convicção que faz com que alguém (de uma instituição cultural ou do poder público de uma cidade de médio ou grande porte) veja ou vá para um lugar que não é o seu habitual (habitual para alguém que atua em uma instituição cultural ou junto ao poder público de uma cidade de médio ou grande porte) buscando identificar “cultura” e “arte” e é capaz de lá encontrar apenas um menino com grande aptidão para o balé clássico e uma menina com um excepcional talento para tocar classicamente o violino. E nada mais. Pode-se argumentar em outra direção (sou insensível a esta argumentação), mas esta convicção expõe uma certeza do que é “cultura” e “arte” em sua dimensão ideológica e técnica mais conservadora. Não me dirijo contra o conservadorismo e a conservação. Apenas me desinteresso por esta convicção.

Também é desinteressante o hábito de as famílias (e as instituições correlatas) empenharem-se em inscrever sua prole em escolas de balé clássico e de música clássica. Hoje em dia é cada vez mais rara a perseguição do ideal romântico do casamento, do matrimônio, da busca pelo príncipe encantado ou pela princesa prendada, porque passou-se a perseguir o ideal igualmente romântico de formar descendências de bailarinos ou músicos. Este empenho das famílias e das instituições correlatas é o empenho da conservação ideológica e técnica de valores que não me interessam. Não me dirijo contra o conservadorismo e a conservação. Apenas me desinteresso por este empenho.

Apenas isto. 23-11-2013 AKIRA UMEDA

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Ago15

O grande cubo branco

por Hilton Besnos

 

Existem diversas opiniões sobre a cidade de São José dos Campos SP, pois é virtualmente impossível que haja apenas uma. O fato dela ser como éestar como estácontinuar sendo e estando no sentido em que ela vem sendo mantida não indica uma unanimidade. Quando muito, indica uma aquiescência, uma conformidade, uma aceitação silenciosa resultante da impotência ou do desconhecimento de outros modelos de ser e estar da cidade. A preocupação com este assunto, é forçoso reconhecer, não está entre as mais vívidas e ativas entre os citadinos. E a cidade segue firme em seu projeto de ser e estar, um projeto que, como se pode deduzir, não é construído coletivamente, não é cidadão. A questão é complicada por inúmeras razões e fatores, que este texto não irá analisar, mas a São José dos Campos tal como ela vem sendo e estando mostra mesmo este esvaziamento, esta anulação da presença humana: não é preciso sequer ter olhos saudáveis para perceber isto. É como se a falta de participação política, acima notada, por uma ironia assombrosa e esclarecedora, aparecesse sem querer na aparência da cidade. São José dos Campos é uma cidade em que se pode ver claramente a vontade de seus  poucos desenhadores em contraposição às multidões desertadas e às paisagens secas de almas. Por alguma razão, esta cidade é a manifestação da tecnologia estética do Cubo Branco, o ideal modernista da galeria construída para acomodar objetos de Arte com base nos conceitos de isolamento e de anulação do mundo exterior e das realidades não-Artísticas. Etimologicamente, o termo Arte significa o mesmo que Tecnologia. São José dos Campos, conhecida como “Capital da Tecnologia”, é uma cidade construída para que a Tecnologia apareça e seja vista como Verdade Absoluta e sem interferências que informem o contrário. Esta cidade é um gigantesco Cubo Branco dedicado à Tecnologia (à Arte) em que a presença física e viva de cidadãos e citadinos só faz atrapalhar.São José dos Campos, neste sentido, vem realizando um estranho conceito de cidade pura, ou seja, que se purifica de seus citadinos e cidadãos. É um projeto que, muito paradoxalmente, visa livrar-se da quase totalidade de seus habitantes, fazê-los sumir ou, pelo menos, recolhê-los à sua insignificância e invisibilidade. A poética deste projeto (de Arte, da arte de governar) engloba diversas referências do passado, mas não vale a pena recuperá-las já que são por demais conhecidas.Akira Umeda, 19 de março de 2013. AKIRA UMEDA

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Ago15

O código de Caminha

por Hilton Besnos
Aprendemos ou ouvimos falar, nas aulas de História, que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal D. Manuel, mais de 500 anos atrás, comunicando um fato extraordinário. Ainda mais fantástico é o fato de que raramente nos conscientizamos de que o Brasil, pelo ato de Pero Vaz de Caminha, tem uma certidão de nascimento, assinada, datada, localizada e reconhecida. Este ato prodigioso corresponde a uma espécie de big bang da cultura brasileira, e os fragmentos da escritura de Caminha estão inscritos em praticamente todos os corpos, textos, sons, imagens, relações e eventos que aqui estão e surgem —embora nem sempre isto esteja claro, do mesmo modo que raramente visualizamos uma pessoa como um mapa genético. O que torna estrondosamente incrível o fato de que, hoje, em todo o mundo, os testes genealógicos de DNA sejam, realmente, documentos comprobatórios que garantem direitos.O código de Caminha se manifesta de formas muito variadas, mas uma delas é particularmente marcante: a forma oficial. Esta forma busca repetir o ato primordial de Caminha, ou seja, escrever uma carta ao rei. Um ato simples, prosaico, ridículo até, mas que tem uma extensão assombrosa. Não há exagero em afirmar queperde-se o sentido de viver na cultura brasileira se não se escreve uma carta ao rei. Dar sentido à vida é dar forma oficial aos nossos corpos, textos, sons, imagens, relações e eventos —ou seja, dar-lhes uma certidão de nascimento assinada, datada, localizada e reconhecida. “Coisas” sem forma oficial são “coisas” sem sentido e, aqui, fontes de sofrimento.Os versos “I’m very superficial / Ihateanything official” (“Sou muito superficial / Odeio tudo que é oficial”) da canção “Private Life”, deChrissieHynde, configuram um exemplo de atitude muito impopular no Brasil, um jeito de ser que não lança raízes. Estes versos, também cantados porGraceJones, desprezam o ato de escrever ao rei e afirmam o prazer de viver sem o reconhecimento oficial. A cultura brasileira não vê qualquer virtude em uma vida fora dos cartórios. A cultura brasileira busca a extrema profundidade. Escrito por Akira Umeda, maio 24, 2013 em 12:46 am

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Ago15

Palimpsestos

por Hilton Besnos

Desde sempre me incomoda a realização automática de eventos que visam concentrar o maior número de pessoas e o maior número de atrações (oferecidas sob o discurso de uma duvidosa porém enfatizada diversidade) que ocorrem seguindo uma periodicidade (anual, bienal etc). Evidentemente, há justificativas concretas e plausíveis que levam a este estado de coisas: a dimensão metropolitana, a sociedade de massas, a democratização, a ampliação do acesso, a ideologia do para todos etc, para citar aquelas que são dignas e corretas (pois há as que não coincidem com dignidade nem com correção). Mesmo em cidades pequenas do interior, o automatismo das soluções produzem eventos gigantescos, hiperdimensionados, que efetiva e literalmente são para todos os habitantes destas cidadezinhas, e que ocorrem uma vez na vida e outra na morte. São os chamados festivais, os fests, os megasgigas e teras. Em São José dos Campos, uma cidade de médio porte, há, no âmbito das políticas públicas municipais, o Festidança (que tende a concentrar atrações de dança em uma semana do ano), o Festivale (que tende a concentrar as atrações de teatro em uma semana do ano), além de projetos em parceria com o Governo do Estado de São Paulo que concentram manifestações diversas em períodos de 2 a 4 dias de um ano (Revelando São Paulo, Virada Cultural, Festival da Mantiqueira etc). Assim, automática e gigantescamente, têm sido desenhados os eventos na cidade. Não há grandes questionamentos com relação a esta solução que concentra as manifestações artísticas concretas e isola as possíveis reflexões sobre o campo artístico. Os automatismos não costumam ser questionados; soluções que se manifestam de tal forma programam as mentes e os corpos de forma a não deixar brechas para indagações, tal como ocorria nas antigas linhas de produção fabril. Mas, diferentemente do que ocorria nas fábricas, tal programação de grandes eventos concentrados/isolados não se articulam coerentemente a um propósito claro, ao menos no âmbito das políticas públicas (na seara das iniciativas privadas, tudo se articula em função de ganhos financeiros). Fábricas montam linhas de produção de carros para alimentar e manter viva a necessidade por carros e para se perpetuarem através dos lucros desta ação. Órgãos públicos de cultura e arte montam linhas de produção de eventos gigantescos, concentrados e isolados para quê? As respostas podem ser claras, mas é inegável que há sempre uma névoa pronta para obscurecê-las.A poética (o conjunto de modelos de experiência) do gigantismo, da concentração, do isolamento e da dispersão faz sentido, mas, ao menos para mim, também traz incômodos e evocações históricas e políticas indesejáveis (como as provenientes do nazismo, nos tempos modernos). Há outros modelos (outras poesias) e quero me dedicar a pensar sobre eles, situar-me nos paradoxos. Mas sei que para que este pensamento venha a ser implementado, reconhecido como poesia legível e legítima, as linhas do texto do programa que definem uma verdade inquebrantável e hipnótica necessitam ser reescritas, hackeadas, rasuradas. Palimpsestos.Akira Umeda, 2013.

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Ago15

Cultura digital

por Hilton Besnos

 

Na língua inglesa, o termo “Cultura Digital” costuma ser substituído por “Sociedade da Informação” (“Information Society”), que, aparentemente, tem um significado mais claro, apontando para este mundo crivado de informações e por elas constante modelado, remodelado, formado e deformado. Mas vale a pena buscar o significado de “Cultura Digital”, um termo mais viscoso do que aparenta ser. Neste sentido, pode-se tomar uma definição de “Cultura” e uma definição de “Digital”, analisá-las em justaposição e extrair um significado —que, é claro, variará de acordo com as definições de “Cultura” e de “Digital” escolhidas e com as diferentes maneiras de conduzir análises.“Cultura” pode ser definida como aquilo “que é copiado, transformado e, então, enraizado. Ou melhor, todo o processo é, ele próprio, a cultura”, segundo o antropólogo japonês Michitaro Tada.  “Digital” pode ser definido como um código, “em sua maioria do tipo ‘1-0’(…) —ou deixam passar (‘1’) correntes de elétrons ou as interrompem (‘0’) (…) O pensamento que se expressa e que produz imagens por meio dos códigos digitais é uma caricatura do pensamento”, segundo o escritor Vilém Flusser. A justaposição destas duas definições permite várias análises, mas uma definição rudimentar de “Cultura Digital” insinua-se de imediato: é a caricatura do pensamento que é copiada, transformada e enraizada; é o processo que visa simular o pensamento. Por enquanto, a “Cultura Digital” se realiza através da relação física entre o Homem e os diversos aparelhos construídos por ele. Não por acaso, esta relação física se dá principalmente entre a pontas dos dedos de suas mãos (de onde se tiram as impressões digitais), e as variadas superfícies (e não as interioridades, profundidades, o que está dentro) destes aparelhos.Diante desta definição e destas considerações rudimentares, é possível perguntar-se, afinal: qual a importância da “Cultura Digital”? Uma delas, a mais óbvia, é que a “Cultura Digital” intensifica  e generaliza um gesto, um comportamento, um movimento corporal: o uso das pontas dos dedos. Considerando-se que as pontas dos dedos são usadas, cada vez mais, para produzir simulações do pensamento humano em aparelhos diversos, tem-se aí uma importância difícil de subestimar. Na “Cultura Digital” trata-se de espalhar impressões digitais nas superfícies dos aparelhos, o que significa que estas impressões digitais são impressões de pensamentos que se espalham. No contexto da “Cultura Digital”, o mundo é visto como uma enorme superfície cheia de marcas de dedos que, na realidade, são transferências de pensamentos. Não é possível ignorar tal mundo produzido pela “Cultura Digital”.São, por enquanto, caricaturas de pensamentos que vão se disseminando, ou seja, pensamentos mais ou menos imperfeitos. No entanto, a repetição dos gestos da “Cultura Digital” tendem a se tornar mais precisos ao longo do tempo e é possível supor que não está longe o momento em que estes gestos produzirão simulações perfeitas dos pensamentos, quando a marca do dedo será perfeita e claramente lida como um pensamento. Esta “Cultura”, a “Digital”, vem sendo  copiada, transformada e enraizada há muito e, para além dos sérios debates e embates relacionados ao controle da “Cultura Digital”, seja pelos poderes públicos instituídos ou pelos próprios produtores de aparelhos, o que parece importante é que as políticas públicas mais generosas e abertas tenham um olhar para esta Cultura. Isto significa que é importante que as políticas públicas consigam ver as marcas dos dedos espalhadas pela superfície do mundo, reconhecer que elas são pensamentos que proliferam e, acima de tudo, dimensionar-se de tal forma que não configurem instrumentos de controle do pensamento.Akira Umeda, 2013.

 
Escrito por Akira Umedamaio 22, 2013 em 1:32 am

Autoria e outros dados (tags, etc)

5 truques de lavagem cerebral que funcionam, não importa quão inteligente você seja

 

Publicado em 7.04.2015

 

O mundo está cheio de pessoas que sofreram lavagens cerebrais e fizeram coisas absurdas, como se matar ou matar a outros. É claro que isso nunca vai acontecer com você, que é bem educado e inteligente, não é mesmo?

Exceto que não funciona assim. Mesmo os mais espertos estão sujeitos a apoiarem causas não tão espertas, por conta de coisas como:

5. Ideias não importam – as pessoas só se preocupam com o que “funciona”
Cientologia é um conjunto de crenças e práticas relacionadas a autoajuda. Enquanto seus cursos incluem conselhos interessantes, a cientologia também ensina que o governante do mal Xenu congelou bilhões de vítimas e escondeu-as em vulcões da Terra.

Por que cargas d’água as pessoas abraçam essa e outras mitologias aparentemente bizarras? Bom, porque tem coisas na cientologia que funcionam. Por exemplo, eles recomendam que as pessoas se concentrem em completar uma tarefa rapidamente e corretamente, esquecendo-se de todas as outras coisas que também precisam fazer. Então, uma vez que essa tarefa for concluída, as pessoas têm a confiança para avançar para a próxima e conseguem fazer tudo que querem.

A cientologia não inventou isso – provavelmente só adaptou essa ideia de tantas outras que existem e que funcionam há séculos. Mas aqui está a chave: quando um cientologista (ou qualquer outra pessoa que tenha qualquer outra crença) diz que isso funciona, é verdade. Funciona. A mitologia adjacente já não é tão importante – se dizem que a técnica funciona por causa de seres pequenos alienígenas que vivem dentro do seu corpo, beleza por você. Isso não muda nada.

Nós não temos espaço no cérebro para manter o controle de como tudo no mundo funciona – por isso, não estamos interessados em explicações científicas complexas sobre por que aqueles conselhos dão certo. Você pode se sentir superior a um cristão que não acredita em evolução, por exemplo, mas em algum lugar há um engenheiro que se sente superior a você por você não saber como funciona o seu iPhone. No fim das contas, a realidade é que você não sabe como o seu iPhone funciona porque saber isso não iria mudar o seu uso desse objeto no dia-a-dia. Da mesma forma, pensar que a Terra tem apenas 6.000 anos de idade não muda muita coisa no seu dia-a-dia, mas outros conselhos, como ter autodisciplina e paciência, podem de fato ajudá-lo, então você aceita o pacote inteiro e prontoacabou.

E SIM, todo mundo FAZ ISSO.

 4. O outro lado é sempre pior

Você está assistindo O Senhor dos Anéis. De um lado da batalha, tem essas pessoas:

Do outro lado, tem isso:

Para quem você torce? Fácil. Se amanhã você topasse com um grupo de caras em um beco lutando contra orcs, você iria se juntar aos caras, sem sequer perguntar sobre a natureza da briga. Não importa – você iria lutar ao lado dos humanos, mesmo que eles fossem neonazistas.

É isso que acontece com a maioria das pessoas que você vê lutando por uma causa realmente terrível ao lado de pessoas terríveis: elas estão fazendo isso porque pensam que estão lutando contra um inimigo que é pior ainda.

As pessoas definem-se principalmente pelo que odeiam. É mais comum ouvir alguém falando mal de Bieber do que defendendo sua banda preferida, ou xingando um candidato político do que exaltando outro.

A verdade é que um grupo de pessoas de fato alimenta a adesão a outro grupo de pessoas com ideias opostas e há uma relação simbiótica estranha entre esses dois “lados”, que é o que garante a sobrevivência de ambos.

Esse também é o motivo pelo qual as pessoas sempre atribuem características negativas a seus “inimigos” que não são de fato relacionadas com quem elas discordam. Por exemplo, não é o suficiente dizer que os antifeministas estão errados ou equivocados; temos que dizer que eles são gordos frustrados assexuados (então a resposta desses gordos frustrados assexuados é que feministas são mulheres irritadiças e fracas ou homens efeminados). Os conservadores são caipiras ignorantes, os liberais são hippies sonhadores, e assim por diante – essa é a chave para manter o foco sempre em quão desumano o outro lado é, de modo que nunca temos de olhar para nossos próprios umbigos.

Nós vamos desculpar qualquer coisa dentro do nosso próprio movimento, porque não importa o quão errado, bisonho ou ilegal ele seja, pelo menos nós não somos orcs.

3. Pertencer a um grupo importa mais do que ter uma opinião sensata

Se você chegar em casa e ver um estranho batendo em sua mãe, você não vai perguntar: “Senhor, qual é a natureza de sua disputa? O que ela fez para você?”. Não, você vai pegar uma faca e mergulhá-la nas costas desse filho da p***. Naquele momento, a lealdade a sua mãe supera qualquer outra coisa.

Da mesma forma, se você conversar com alguém que esteve em uma guerra e perguntar-lhe como ele conseguiu fazer tudo o que fez, a pessoa provavelmente não vai dizer que foi o seu amor pelo país ou sua crença na causa (muitos soldados nem sequer podem articular a razão que levou às batalhas nas quais lutaram). Não. O soldado certamente vai responder que aguentou firme pelo cara que estava do lado dele. Ele precisava ajudá-lo, do mesmo modo que o colega o estava protegendo também. É assim que as pessoas em guerras sobrevivem e não pensam no que estão fazendo – porque precisam cuidar umas das outras.

É também a razão pela qual nós gostamos de torcer por equipes esportivas, é a razão pela qual adolescentes formam panelinhas e é a razão pela qual as pessoas se unem a gangues.

Queremos pertencer a um grupo, uma “tribo”. Desde que essa tribo não tenha qualquer crença que seja absolutamente repulsiva para você, qual é a crença em si não importa. Por exemplo, um ex-neonazista já contou que se juntou a um grupo de skinheads antes mesmo de saber que eles eram skinheads. Antes apenas um grupo de pessoas que saíam juntos, foi como se eles tivessem decidido um dia que agora odiavam judeus. E esta é a chave: se alguém aparecesse e falasse para esse ex-neonazista que seus amigos eram idiotas vendedores de ódio, ele teria ouvido isso como uma crítica às pessoas mais próximas a eles. “Vendedores do ódio?!? Eu confio nos meus manos com a minha vida!”.

“Mas”, você insiste, “eu nunca odiaria todo um grupo étnico de pessoas só para agradar meus amigos!”. Talvez não, mas há maneiras mais sutis de ser arrastado para dentro de um grupo sem concordar totalmente ou sequer entender suas ideias e crenças. Seja honesto: você provavelmente nem conhece todas as propostas que seu candidato político fez, e votou nele mesmo assim. Pior: o defendeu mesmo sem poder dizer o que ele defendia.

Muitas vezes, quando uma nova controvérsia de qualquer natureza surge – biscoito ou bolacha? -, a maioria das pessoas não estuda cuidadosamente a questão para descobrir como se sente e o que pensa dela. Não. Elas apenas seguem sua tribo. Frequentemente, adotam opiniões alheias como suas (porque foi meu pai que falou, ou aquele amigo que eu acho que é inteligente!). Além disso, acham que entendem de algo porque viram uma única informação vinda de uma fonte conhecida (mas não necessariamente com credibilidade), quando a realidade é que provavelmente têm chocantemente pouco conhecimento sobre o assunto o qual estão opinando.

Meu ponto não é que todo mundo seja idiota e hipócrita. Meu ponto é que nós não temos espaço em nossos cérebros para manter controle de tanta informação, e nossa primeira prioridade é pertencer a um grupo – isso garante companhia, apoio, sobrevivência. Não é culpa de ninguém, mas significa que você não vai mudar a cabeça das pessoas apenas bombardeando-as com informações.

2. Geralmente, todo mundo tem o mesmo código moral, só que o usam de forma diferente

Você se considera moralmente superior às pessoas que costumavam queimar bruxas? Eu espero que sim – essas pessoas sequestravam homens e mulheres inocentes e os executavam com base em uma superstição ridícula.

Mas e se, em uma surpreendente reviravolta, nós descobríssemos que as bruxas não apenas são reais, mas que tudo dito sobre elas é verdade? Que elas de fato têm poderes mágicos obscuros que usam para torturar e assassinar pessoas em massa? E, uma vez que são mágicas, que a única maneira de pará-las é matando-as? Quero dizer, você aplaudiu quando Voldemort morreu, não?

Tá-dá! Fica claro que você não é, necessariamente, mais tolerante do que os caçadores de bruxas – você apenas não compartilha de sua crença em bruxas. Seu código moral pode de fato ser exatamente o mesmo do deles – você só discorda sobre esse fato em particular. E fatos podem estar certos ou errados, mas não podem ser morais ou imorais.

É isso que acontece em praticamente todo debate político. Ambos os lados concordam com o princípio moral de que a tirania do governo é ruim. Eles simplesmente discordam sobre se os ideais de um ou de outro são um exemplo de tirania do governo.

Mas não conseguimos ver claramente essa questão moral. A fim de preservar a narrativa “bem contra o mal”, muitas vezes as pessoas decidem que o outro lado do debate está simplesmente mentindo sobre o que acreditam. “Os caçadores de bruxas nem sequer pensavam que bruxas existiam, eles só queriam uma desculpa para mutilar mulheres!”.

Isso é sem dúvida verdade em alguns casos, mas não na maioria. Isso não impede ambos os lados de desejarem acreditar que o seu inimigo é realmente pior. Só não é o caso. As pessoas de lados opostos de certas questões na verdade geralmente possuem os mesmos valores morais, embora possam priorizá-los de forma diferente.

Se você quer um exemplo cotidiano disso, basta pensar naquele amigo chato que é excessivamente franco com suas opiniões, arruinando o bom humor alheio por onde passa. Não é que ele seja imoral; é que ele está priorizando um valor moral (honestidade) em detrimento de outro (minimizar danos emocionais). E torna-se ainda mais difícil odiá-lo quando você percebe que ele está realmente fazendo escolhas morais corajosas todos os dias – ele pode ter tomado uma decisão angustiante de dizer que sua camisa parece algo que um urso cagaria depois de comer um palhaço porque viu isso como a coisa “certa” a fazer, de acordo com sua moral interna. Provavelmente, é o que ele gostaria que você fizesse por ele, caso um dia ele usasse uma camisa que parece algo que um urso cagaria depois de comer um palhaço.

1. A maioria das pessoas caem em sua “tribo” por acidente

Se você procurar livros que explicam por que as pessoas brancas são a raça superior do mundo, você vai encontrar uma coincidência surpreendente quando olhar para os seus autores: eles são todos brancos.

Louco, não? Qual a probabilidade???

Ano passado, a revista TIME fez um experimento no ano passado onde antecipou com precisão as convicções políticas de americanos apenas pedindo-lhes que respondessem uma série de perguntas completamente não políticas, como “Você prefere gatos ou cães?” e “Seu espaço de trabalho é organizado ou bagunçado?”. Outro estudo descobriu que você pode antever a posição política de alguém estudando como seu cérebro processa riscos.

É. Não é difícil prever o grupo no qual uma pessoa pensa que se encaixa. Geralmente, elas acreditam que a pior característica que uma pessoa pode ter é justamente algo que para elas é fácil não ter. Por exemplo, muitas pessoas em forma acham que os gordos são “lesmas preguiçosas” – para elas, as pessoas não estão no mesmo nível que elas por culpa própria. Muitos ricos também pensam que pobres são inferiores por serem vagabundos que não querem trabalhar ou estudar. E daí por diante.

Tudo isso pode parecer preconceito – e provavelmente é -, mas assim que é a vida: você apoia os grupos dos quais você por um acaso faz parte. Você pode pensar nisso como sua “Configuração de Padrão Moral”, e ela é em grande parte determinada por onde você nasceu, como você foi criado e em qual grupo de amigos você caiu.

Se você quiser ver sua Configuração de Padrão Moral em ação, imagine que você e sua mãe foram visitar um país estrangeiro. Na entrada, eles exigem que todas as mulheres removam suas camisas e sutiãs para que possam ser fotografadas para fins de identificação. Você acha isso nojento e misógino – secretamente, eles só querem ver tetas e são uma cultura estranha e machista.

E, no entanto, quando mulheres muçulmanas levantam essa mesma objeção quando precisam remover suas coberturas de cabeça para fotos de identificação em países estrangeiros, nós dizemos que SUA cultura é primitiva e misógina – porque as suas regras arbitrárias sobre quanto do corpo de uma mulher deve ser coberto em público são lógicas e respondem ao bom senso, enquanto as dos outros são o resultado de superstição e loucura.

Na realidade, ambos estão apenas reagindo ao seu “Ambiente Moral Padrão”, como se fosse uma verdade absoluta proferida na criação do universo. Que outras pessoas têm diferentes padrões – e acreditam neles tão fortemente quanto você – é um fato quase impossível de compreender.

 

Admita: você secretamente tem certeza de que se tivesse vivido no Brasil escravo como um homem branco, teria sido um dos mais não racistas. Você também teria sido um dos jovens alemães que não foram sugados por Hitler. Ao imaginar-nos transportados para outro tempo e lugar, nós sempre assumimos que nosso Ambiente Moral Padrão de alguma forma viaja com a gente, porque não podemos conceber uma vida sem ele.

E esse ambiente é o que faz com que seja praticamente impossível realmente entendemos e respeitarmos uns aos outros. Quando você tenta fazer com que alguém desvie de seu próprio padrão, meu amigo, é quando todos os outros itens nesta lista reúnem-se em um único Power Ranger para se opor a você. Você está pedindo a ele para A) abandonar o que funcionou para ele até agora, B) deixar os bastardos maléficos do lado oposto ganharem, C) trair seus amigos e D) abraçar o que ele vê como imoralidade.

Muitas pessoas preferem, literalmente, morrer do que desviar de sua Configuração de Padrão Moral, também conhecido como mudar de opinião. [Cracked]

Autor: Natasha Romanzoti

tem 25 anos, é jornalista, apaixonada por esportes, livros de suspense, séries de todos os tipos e doces de todos os gostos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

13
Ago15

Colonialismo cultural

por Hilton Besnos

A DO DIA. Desde o paradigma cartesiano (René Descartes, 1596 – 1650) e da Revolução Francesa, passamos a pensar em termos de duplicidades excludentes entre si, o que influenciou decisivamente não apenas os critérios científicos e políticos, mas também o modo de vermos o mundo. Hoje em dia, embora pensadores como Einstein, Heisemberg, Morin, Capra e outros nos ensinarem que soluções parcialistas e padrões excludentes entre si não mais explicam o mundo em que vivemos, insistimos em um gap cultural, como diria De Masi. Continuamos nos relacionando e vendo o mundo em termos de padrões excludentes sem sentido.

Por isso, assim como o pensamento descartiano nos fazia crer em padrões dissentes (dia, noite – espírito, matéria – bem, mal – razão, sentimento – céu, terra – escuridão, clareza – direita, esquerda et caterva) e incorporamos esse tipo de raciocínio, temos dificuldades enormes de encararmos a realidade simples, e, especialmente, de transitarmos entre essas duplicidades do cotidiano e dos nossos semelhantes.

Nesse sentido, creio que aprendemos pouco desde o século XVII. Por isso, embora os próprios físicos insistam em que o observador não é neutro, na medida em que não pode abortar suas próprias ideias a respeito do que observa, continuamos nos degladiando ad eternum para provarmos que nossas teses são as mais corretas, que nossas verdades são as mais irretocáveis, que as nossas ironias são humor, que as nossas falsidades são um exercício metafórico, e que o poder somente será melhor se estiver nas mãos de quem elegemos para tanto.

Na verdade somos ingênuos. Talvez a maior dessas vilanias seja pensarmos em que os demais é que são ingênuos, desprezarmos a inteligência alheia ou – pior – não seguirmos o que nos disse e nos ensinou Paulo Freire – aprendemos com o outro e através do outro ou, para quem gosta de literatura, citando ocasionalmente Saramago – tentar convencer o outro de nossas convicções não passa de colonialismo cultural.

Abraços a todos.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D