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Na América e na Europa, a crise económica cada vez se assemelha mais a uma crise existencial. Há soluções para construir um outro futuro, nota o sociólogo francês Alain Touraine, mas os políticos não sabem aproveitá-las.
As três crises. Esta fórmula parece artificial, mas não é. Por trás da crise financeira, estalou uma crise monetária e económica que revelou ser uma crise política. E os nossos países europeus mostraram-se incapazes de pensar e de organizar o seu próprio futuro, facto que constitui uma terceira crise.
A primeira, a mais visível, foi a crise financeira que culminou em setembro de 2008 com o fecho do banco Lehman Brothers em Nova Iorque. Esta crise foi mais grave nos EUA e na Grã-Bretanha, mas também na Europa continental. Em contrapartida, depressa outros países se restabeleceram e chegaram mesmo a atingir elevados níveis de crescimento.
Houve quem julgasse a crise acabada e a retoma assegurada, quando, no início de 2010, estalou uma crise, sobretudo europeia, orçamental e económica. Tudo começou com um imprevisto: a Grécia estava à beira da falência. Descobrimos então a gravidade dos nossos males: a enormidade dos défices orçamentais, o rápido crescimento da dívida pública, a incapacidade quase generalizada de fazer descer os elevados números do desemprego.
Esta crise é, acima de tudo, uma crise política. É uma crise que manifesta a impotência dos países europeus em gerir a sua economia, em diminuir a despesa pública, em fazer crescer as receitas fiscais e, sobretudo, em relançar o crescimento sem o qual não haverá qualquer recuperação orçamental.
A terceira crise que assola o ocidente é a ausência de um projeto civilizacional, facto que ainda se compreende menos. Durante séculos, o ocidente europeu concentrou todos os seus recursos nas mãos de uma elite dirigente de monarcas absolutos e, mais tarde, do grande capital.
Conseguiu igualmente conquistar, em poucos séculos, uma grande parte do mundo. Mas este modelo de conquista assenta sobre duas situações perigosas. A primeira é o facto de toda a sociedade estar brutalmente submetida ao poder dos dirigentes. Dos súbditos de sua majestade aos operários fabris e aos colonizados, às mulheres e às crianças, todas as faixas da população ficaram sujeitas a formas de dominação extrema. O modelo ocidental foi, simultânea e indissoluvelmente, um modelo de conquista e um modelo imponente.
A sua outra fraqueza foi ter servido para a formação de nações que estiveram em guerra durante séculos, até que a Europa do século XX se lançou em duas guerras mundiais e numa vaga de regimes totalitários. As lutas entre nações europeias só terminaram com a hegemonia americana e a criação de uma União Europeia assente no enfraquecimento dos Estados. O sistema social europeu foi-se enfraquecendo mais lentamente.
Os povos derrubaram monarcas, os assalariados conquistaram direitos sociais, as colónias libertaram-se, as mulheres conquistaram direitos, mesmo que não tenham conseguido acabar com a desigualdade que as vitima. Mas depois da Belle époque, dos anos de democracia social da segunda metade do século XX, a Europa, libertada dos seus maiores sofrimentos e das suas maiores loucuras, encontra-se sem modelo de desenvolvimento, sem projeto de vida.
São da Europa as grandes vozes que se fizeram ouvir nestes últimos séculos, mas hoje a Europa está silenciosa, vazia, sobretudo por não ter conseguido, até à data, substituir o seu antigo modelo de modernização. Mas isso não é impossível e já conhecemos os grandes temas que deveriam ser prioritários para o próximo século: os ecologistas convenceram-nos a conciliar os direitos da economia com os direitos do ambiente; os movimentos culturais revelaram-nos que não basta conquistar o governo da maioria e que também é preciso respeitar os direitos das minorias.
As mulheres, de uma forma mais privada do que pública, começaram a construir uma sociedade cujo principal objetivo é reconciliar os opostos e privilegiar a integração interior em detrimento da conquista exterior. Estes grandes projetos, no entanto, que deveriam imperiosamente transformar-se em projetos políticos, têm mais apoio da opinião pública do que dos governos.
Embora seja possível inventar um futuro, já não temos instrumentos políticos e, sobretudo, intelectuais para sairmos das crises cujas consequências mais negativas temos tentado apenas atenuar. O capital financeiro é o único setor da vida económica que se restabeleceu depressa e bem. Simultaneamente, a desigualdade social continua a aumentar, a economia de produção saiu da Europa e o debate político continua o mesmo em todos os países. Não podemos dizer que a nossa impotência política e intelectual seja uma consequência da crise. Ela é a sua causa principal. Este facto indica claramente onde se encontram as nossas prioridades.
Não existe uma solução para a crise económica sem uma solução para a crise política e cultural. É urgente o restabelecimento político e, sobretudo, o renascimento intelectual e cultural. A Bélgica e a Holanda foram assolados por um populismo chauvinista e xenófobo. A vida política em Itália e em França está arruinada e tem de ser totalmente reconstruída. Perante o papel dominante dos EUA, carecemos da vitória de Barack Obama sobre um partido republicano reacionário e pouco inteligente.
Foram os melhores economistas que nos explicaram a importância primordial das soluções sociais e políticas para ultrapassar a crise económica, mas os políticos dão mostras de ainda não terem entendido. Não podemos continuar a avançar devagarinho, pois nem sequer sabemos se estamos a avançar ou a recuar. Precisamos urgentemente de imaginar, pensar e construir o nosso futuro, afastando a névoa e o silêncio que nos impede de descobrir os instrumentos políticos indispensáveis à construção desse futuro.
Fonte: artigo retirado de
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/352271-um-futuro-reinventar

O centauro, por menos provável que pareça, não mora nos pampas. O centauro também não é centenário, conforme poderia se pensar; na realidade é bem mais antigo. Alguns o chamam de mito, outros de O MITO, o que é mais interessante, mas o centauro continua por aí, meio arredio, meio sem aparecer nos points de costume. O centauro é um ser muito indeciso, entre a macheza do cavalo e entre o persistente senso de humanidade, e por isso ele é basicamente um bicho-homem (ou um homem-bicho) triste. Se há alguém com quem ele se entenda é com a iara, aquela que é metade peixe, metade gata (alguém já viu uma iara ou uma sereia feias, por acaso?). Com ela sim, o centauro consegue conversar, consegue se sentir bem. Já namoraram, mas nunca além do sentido mais metafórico, porque é impossível a ambos concretizarem seus sonhos eróticos. E isso é, muitas vezes, paralisante.
Nosso centauro se chama Enio e nossa iara se chama Maria Eunice, e eles adoram conversar, contar a respeito de suas experiências, sejam elas bem ou mau sucedidas. Aí teve uma noite em que, embaixo de um luar maravilhoso, se abraçaram e, perdidos entre sensações de amor, de encanto, beijaram-se de modo tão romântico que a própria lua, envergonhada, pediu para que uma nuvem cobrisse sua pudicícia. A lua, ao contrário do que pensam, não é para os namorados. É para os enamorados, o que é um pouquinho diferente. De qualquer modo, não quis presenciar os esforços românticos que houve entre um centauro e uma iara. As estrelas sim, essas indiscretas, presenciaram tudo.
Infelizmente o sol raiou, e Maria Eunice retirou-se para o fundo de seu lago, onde se sentia mais prisioneira do que rainha, mais constrangida do que esfuziante. E logo Enio igualmente se foi para longe, galopando para nunca mais voltar.
Hoje Maria Eunice já envelheceu muito, e passa seus dias lembrando da noite em que Enio a tomou nos braços, e em que seus lábios a tomaram como um vendaval. Nas tardes, Maria Eunice costuma cantar, mas até seus cantos não são mais os mesmos, pois o que lhe falta em encanto sobra em saudades.
Enio cada vez mais tem crises de identidade, pois se lhe a paixão o atormenta como uma lâmina, as patas o impulsionam para cada vez mais longe, mesmo que ele assim não queira. Enquanto isso o tempo, mensageiro de todos nós, simplesmente cofia suas longas barbas, enquanto expulsa as nuvens daqui para lá e de lá para cá. HILTON BESNOS
Abomino quem se comporta full time com a seriedade de uma pedra; quem não tem leveza e parece carregar o mundo nas costas. Normalmente essas pessoas contaminam o ambiente, trazem-lhe pesadas nuvens. Sua postura é algo que cheira a miserabilidade, a impotência, a tristeza. São infelizes essas criaturas e perderam de há muito o contato com a beleza e com as pequenas coisas bonitas que existem.
Abomino quem pensa que o ideal da vida é dizer aos outros o que fazer, durante o máximo de tempo possível. Abomino os administradores da vida alheia, os metidos, os inoportunos, os chatos. Tenho pena verdadeira de quem não sabe que o sol e a lua são cíclicos e que, em verdade, somos muito pequenos na face da terra. Penso sinceramente que as regras devem existir, mas não gosto de quem exige dos outros tal cumprimento.
Prefiro a lua ao sol. Prefiro a leitura à conversa descontrolada e ao falar por falar por falar por falar e, finalmente, por falar. Detesto conversas vazias, ocas, como um café mal feito e mal passado. Tenho verdadeira ojeriza a quem utiliza um poder factual para impor suas opiniões aos demais e, especialmente, para manipular esses demais.
Adoro gente ignorante quando encontra um lapso de lucidez.
Adoro a humanidade, mas não gosto de pessoas arrogantes, seja pessoal ou intelectualmente. Abomino participar de reuniões nas quais se dizem redundâncias ou em que alguém que se julga mais qualquer coisa que o outro se julga no direito de cortar a palavra alheia. Detesto situações nas quais apenas pensamos em nós mesmos, sem qualquer consideração ao grupo em que estamos.
Abomino gente que não sabe o que está dizendo e faz jogo pra platéia. Abomino democratismo. Tenho paixão por quem luta por suas convicções, mas que não se arma com um escudo e um míssil Tomahawk para submeter os outros ás suas opiniões. Amo partidas de futebol. Detesto comentários tolos, mal concebidos, comentários maldosos, jocosidades e situações nas quais se usa subterfúgios para ferrar os outros.
Desconfio de pessoas que não tem senso de humor, que adoram seguir regras, quaisquer uma delas – e se colocam na posição de juízes. Abomino gente dura, que pensa que a flexibilidade é sinal de fraqueza. Detesto bajuladores, o que não deve ser confundido com agressividade em relação àqueles que factualmente possam deter uma fatia (mesmo ínfima) de poder.
Tenho sérias desconfianças de quem só pensa em trabalho e não sabe o que fazer quando se aposentar, a não ser a certeza de que vai trabalhar mais ainda. Acho estranhas as pessoas que se constrangem quando se fala a respeito de sexo, ócio, prazer e em tudo que nos faz mais humanos.
Abomino pessoas que precisam de aprovação de outros para dar um mísero, um humano e um simples flato (para ser educadinho). Abomino quem diz ou demonstra saber tudo e diz o tempo todo que sabe como os outros devem se portar. Detesto quem se comporta de modo o mais conveniente possível.
Mais ou menos assim. HILTON BESNOS
LE MONDE DIPLOMATIQUE
http://www.diplomatique.org.br/edicoes_especiais_artigo.php?id=119
04 de julho de 2012
Longe das urnas, as três principais agências de classificação de risco dão a medida da crise que sacode a Europa, orquestrando o que o então presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros (AMF) da França, Jean-Pierre Jouyet, qualificou de “ditadura de fato” dos mercados.
por Ibrahim Warde.

Como adolescentes agitados, os governos contemporâneos espreitam as mudanças de humor das agências de classificação de risco. Apanágio dos países ditos “emergentes” até a recente crise financeira, atualmente essa antecipação febril toma conta de todos. Dos cerca de 160 países avaliados, apenas 15 ainda ostentam a nota mítica, o triplo A. Ora, o sistema de classificação é rico em efeitos perversos, a começar pela natureza autorrealizadora das profecias desses nostradamus modernos. Basta que eles prevejam uma crise (mesmo sem razão) para que se precipite a própria crise.
Em outubro de 2011, a agência de classificação norte-americana Moody’s anunciou que examinaria a situação econômica da França para decidir se rebaixava ou não a nota do país. Mas o elemento-surpresa veio de outra gigante do rating, a Standard & Poor’s (que cinco meses antes tinha retirado dos Estados Unidos seu triplo A), quando decidiu rebaixar, em 13 de janeiro de 2012, a nota de nove países da zona do euro. A França perdeu seu precioso triplo A, que detinha havia 36 anos.
Ao rebaixar a nota francesa, a Standard & Poor’s citou não só o crescimento anêmico e o “endividamento” do país, mas também a “rigidez” de seu mercado de trabalho. Em resumo, as agências reclamam concomitantemente crescimento, austeridade e flexibilidade do setor trabalhista: uma lógica cujas falhas, contudo, são demonstradas pela agonia da economia grega, submetida recentemente ao controle do rigor fiscal. Mas, tanto faz, isso não importa…
Adequação das políticas
Pouco antes da decisão da agência de classificação, Alain Minc, ligado a Nicolas Sarkozy [que deixou o posto de presidente francês em maio de 2012], declarava que o triplo A da França era sinônimo de “tesouro nacional”,1 sugerindo que a adequação da política do presidente (em particular o persistente plano de austeridade) às exigências do mercado era um trunfo de primeira grandeza para sua reeleição.
O então porta-voz do Partido Socialista (PS) Benoît Hamon fez uma análise diferente, num texto publicado em 2011: “Qualquer promessa de conquista social está exposta ao rebaixamento da nota de um país pelas agências de classificação de risco. É inaceitável, mas por enquanto é assim. Esse é o dilema da esquerda: combater ou trair”.2 Aparentemente, o então candidato à eleição presidencial pelo PS, François Hollande, tinha feito sua opção. Após o rebaixamento da nota francesa, ele fez do então presidente, Nicolas Sarkozy, o alvo de suas críticas, a ponto de validar a ação das agências: “É a credibilidade da estratégia aplicada desde 2007 que está sendo posta em jogo. Tal estratégia não foi coerente, não foi constante, não foi previdente e, sobretudo, não foi eficaz”.3 O então primeiro-ministro, François Fillon, fez raciocínio semelhante quando respondeu: “Seria interessante saber o que uma agência de classificação pensa de um programa [como o do PS], no qual só o que há são argumentos que defendem gastos [públicos] e alta de impostos, e, pior ainda, a volta atrás, relativamente a decisões estruturais, como a reforma da aposentadoria ou a política nuclear da França”.4
Ditadura dos mercados
O embate teve uma virtude. Revelou a lógica interna dos acontecimentos: atualmente, os programas econômicos dos dirigentes políticos europeus parecem prioritariamente destinados a seduzir os três famosos cérberos– o mítico cão vigilante – do setor financeiro [Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch Ratings], e não a população, inclusive em período eleitoral. Uma situação que Jean-Pierre Jouyet, então presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros (e ex-secretário de Estado sob o primeiro-ministro François Fillon) da França, qualificou de “ditadura de fato dos mercados”.5
Há até pouco tempo, o poder das agências limitava-se ao mundo empresarial e das coletividades locais, a cujas emissões de títulos elas conferiam uma nota. A análise de solvibilidade dos tomadores de empréstimos e capitais é que a fundamenta. O triplo A, extremamente almejado e raramente atribuído, é concedido aos melhores tomadores e indica uma segurança de pagamento absoluta. À medida que a probabilidade de não pagamento aumenta, a nota diminui. O triplo B é sinônimo da menção “passável”, pois ainda se está – mas no limite – na categoria “investimento” (investment grade): ou seja, um investidor prudente ainda pode se aventurar. Abaixo desse patamar, já se cai na categoria de “especulação” (speculative grade), que só convém aos mais temerários, dispostos a assumir o risco em troca de um rendimento elevado. A nota D, atribuída aos títulos em defaultde pagamento, é sinônimo de pontuação zero do sistema.
Em princípio, uma boa avaliação permite emprestar a taxas mais baixas.6 Quanto mais a nota diminui, maior é a taxa de juros, pois os investidores exigem então um prêmio, o “bônus de risco”. Os títulos com classificação desfavorável (ou sem nota) são considerados “podres” (junk bonds), mesmo que seus vendedores prefiram a denominação “títulos de alto rendimento” (high yield bonds).
Em busca de uma boa nota
O procedimento de classificação tem um funcionamento mecânico e regular: o cliente apresenta seu dossiê, uma equipe de examinadores vai visitá-lo e examina suas contas detalhadamente antes de fazer um relatório interno; esse relatório é em seguida submetido a um comitê que estabelece a nota. Para alguns tipos de empresa, um bom ratingé vital. Um banco com nota desfavorável, por exemplo, fica automaticamente em posição desfavorável perante seus concorrentes mais bem avaliados, que pagam menos pelos recursos que levantam. A mesma coisa acontece com as seguradoras: na medida em que a nota atribuída reflete a capacidade de honrar os compromissos relativos aos segurados, toda e qualquer degradação provoca a desconfiança dos clientes e, dessa forma, uma queda do faturamento.
Apesar de privadas, as agências de classificação de risco recebem a fiança do poder público, o que as autoriza a definir as regras do jogo financeiro. Por um lado, a maioria dos emissores precisa obter uma nota. Por outro, alguns investidores institucionais – seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento e poupança – precisam investir o essencial, quando não a totalidade de seus capitais em emissões com boas notas. Além disso, as instituições financeiras que se beneficiam das melhores notas são em geral submetidas a uma regulamentação menos rigorosa.
Apesar de teoricamente aberto a todos, o mercado de classificação se resume, fundamentalmente e com exceção de setores bem precisos, a um binômio formado pela Standard & Poor’s, filial da Editora McGraw-Hill, cujas origens remontam a 1860; e pela Moody’s, filial do grupo de informação financeira Dun & Bradstreet, fundada em 1900.7Essas duas empresas gozam de uma situação privilegiada que se anuncia de longo fôlego, já que um número sempre crescente de emissões deve ser classificado – a um valor de US$ 100 mil ou mais por emissão.
Erros de avaliação
Nos anos 1990, a Moody’s e a Standard & Poor’s foram acusadas mais de uma vez de concorrência desleal e até de chantagem por emissores que passaram a preferir as pequenas agências. A eles, as duas gigantes atribuíam então notas “não solicitadas”, em geral desfavoráveis. Evidentemente não se tratava de uma sanção, mas de um “serviço público”, permitido pela primeira emenda da Constituição norte-americana, que garante o direito à livre expressão.8 Mas nem por isso o procedimento deixava de significar: “Pague, senão…”.
Segunda crítica: as agências de classificação cometem erros graves, de consequências incalculáveis. Em 1975, às vésperas de declarar moratória, a cidade de Nova York tinha uma nota favorável, por exemplo. Mas foi, sobretudo, por ocasião do desmoronamento do sistema financeiro, em 2008 e 2009, que as agências, que não tinham previsto absolutamente nada, caíram no ridículo: as grandes instituições financeiras ainda se beneficiavam do famoso triplo A apesar de estarem à beira do precipício, a exemplo dos famosos produtos subprime, promovidos à categoria de investimentos seguros, correspondendo ao perfil mais conservador. Mas nem por isso toda essa situação ridícula acabou com as agências. Ao contrário, o episódio tornou-as mais fortes do que nunca! Na verdade, os governos corriam atrás dessas instituições financeiras, pondo sua própria solvibilidade em risco, sob o olhar atento… das agências de classificação.
Pois o verdadeiro poder dessas agências provém da classificação dos Estados. Na verdade, desde 1990 – com a crise da dívida, o minguar da ajuda externa e dos empréstimos bancários, e as receitas neoliberais das organizações internacionais no cardápio –, o essencial do financiamento externo dos Estados se fez nos mercados de renda fixa (em resumo, o endividamento mais do que o imposto). Classificar as diferentes formas de dívida soberana de um país (em moeda nacional, em divisas etc.) equivale a avaliar o país em si (as empresas privadas nele instaladas são alvo de uma classificação separada, em geral ainda mais severa). Uma avaliação desfavorável não significa só o aumento do custo do financiamento. Na hora em que os tomadores de empréstimos privados e públicos se dedicam, em escala mundial, a uma concorrência ferrenha para conseguir e atrair capital, uma nota desfavorável também pode levar ao estrangulamento financeiro de um país do qual o mercado desconfia.
Sem regulação
Se a leitura de um balanço de uma empresa anglo-saxã pode se prestar a procedimentos codificados e a análises clássicas, a classificação de um país, sobretudo em um contexto de incerteza praticamente total, é recheada de armadilhas e perigos. Somente uns poucos critérios são mensuráveis e quantificáveis, como ganho médio por habitante, aumento do PIB, inflação, dívida externa etc.; mas não a maioria dos critérios, como “boa gestão” da economia, perspectivas de longo prazo, estabilidade política etc. Mas, nesse domínio, as agências não parecem marcadas pelo signo da prudência. Assim, um país pode ter sua nota modificada de um dia para o outro ou passar à posição de “m estado de atenção”, em antecipação a um eventual rebaixamento. Esse tipo de aviso leva com frequência a uma mudança de política, com o objetivo de evitar a sanção financeira do(s) “mercado(s)”.
Extremamente preocupadas com a transparência, quando se trata do alvo das notas que atribuem, as próprias agências continuam, todavia, sendo bastante misteriosas. Seu poder exorbitante e seus abusos deveriam levar a um controle mais rigoroso de suas práticas e à procura de outro tipo de solução. Mas será que tais agências podem realmente ser controladas por outras instituições financeiras além dos governos… que elas vigiam com extrema atenção e bem de perto?
Ibrahim Warde é professor associado na Universidade Tufts (Medford, Massachusetts, EUA). Autor de Propagande impériale & guerre financière contre le terrorisme, Marselha-Paris, Agone – Le Monde Diplomatique, 2007.
Ilustração: Laura Teixeira
1 Le Figaro, Paris, 23 ago. 2011.
2 Benoît Hamon, Tourner la page [Virar a página], Flammarion, Paris, 2011.
3 Site do Nouvel Observateur (nouvelobs.com), 14 jan. 2012.
4 Le Journal du Dimanche, Paris, 15 jan. 2012.
5 Le Journal du Dimanche, 13 nov. 2011.
6 O rebaixamento da nota dos Estados Unidos não teve como consequência uma alta do custo da dívida norte-americana. Para alguns, isso se deve ao fato de que “os mercados” teriam antecipado amplamente esse rebaixamento. Para outros, ser rebaixado em um nível (de AAA para AA+) não poria em discussão a solvibilidade do país.
7 Ao lado das duas gigantes, há também sete anãs: Fitch Ratings (a maior delas), Kroll Bond Rating Agency, A. M. Best Company, Dominion Bond Rating Service, Japan Credit Rating Agency, Egan-Jones Rating Company e Morningstar.
8 Business Week, Nova York, 8 abr. 1996.
Este texto foi retirado, com autorização, do BLOG DO EASON
Site: http://easonfn.wordpress.com/2011/01/23/os-prostibulos-do-capitalismo/#comment-702
OS PROSTÍBULOS DO CAPITALISMO
Carta Maior
Emir Sader
Os chamados “paraísos fiscais” são verdadeiros prostíbulos do capitalismo. Nesses territórios se praticam todos os tipos de atividade econômica que seriam ilegais em outros países, captando e limpando somas milionárias de negócios como o comércio de armamentos, do narcotráfico e de outras atividades similares.
Os paraísos fiscais, que devem somar um total entre 60 e 90 no mundo, são micro-territórios ou Estados com legislações fiscais frouxas ou mesmo inexistentes. Uma das suas características comuns é a prática do recebimento ilimitado e anônimo de capitais. São países que comercializam sua soberania oferecendo um regime legislativo e fiscal favorável aos detentores de capitais, qualquer que seja sua origem. Seu funcionamento é simples: vários bancos recebem dinheiro do mundo inteiro e de qualquer pessoa que, com custos bancários baixos, comparados com as médias praticadas por outros bancos em outros lugares.
Eles têm um papel central no universo das finanças negras, isto é, dos capitais originados de atividades ilícitas e criminosas. Máfias e políticos corruptos são frequentadores assíduos desses territórios. Segundo o FMI, a limpeza de dinheiro representa entre 2 e 5% doi PIB mundial e a metade dos fluxos de capitais internacionais transita ou reside nesses Estados, entre 600 bilhões e 1 trilhão e 500 bilhões de dólares sujos circulam por aí.
O numero de paraísos fiscais explodiu com a desregulamentação financeira promovida pelo neoliberalismo. As inovações tecnológicas e a constante invenção de novos produtos financeiros que escapam a qualquer regulamentação aceleraram esse fenômeno.
Trafico de armas, empresas de mercenários, droga, prostituição, corrupção, assaltos, sequestros, contrabando, etc., são as fontes que alimentam esses Estados e a mecanismo de limpeza de dinheiro.

Um ministro da economia da Suíça – dos maiores e mais conhecidos paraísos – declarou em uma visita a Paris, defendendo o segredo bancário, chave para esses fenômenos: “Para nós, este reflete uma concepção filosófica da relação entre o Estado e o indivíduo.” E acrescentou que as contas secretas representam 11% do valor agregado bruto criado na Suíça.
Em um país como Liechtenstein, a taxa máxima de imposto sobre a renda é de 18% e o sobre a fortuna inferior a 0,1%. Ele se especializa em abrigar sociedades holdings e as transferências financeiras ou depósitos bancários.
Uma sociedade sem segredo bancário, em que todos soubessem o que cada um ganha – poderia ser chamado de paraíso. Mas é o contrário, porque se trata de paraísos para os capitais ilegais, originários do narcotráfico, do comercio de armamento, da corrupção.
Existem, são conhecidos, quase ninguém tem coragem de defendê-los, mas eles sobrevivem e se expandem, porque são como os prostíbulos – ilegais, mas indispensáveis para a sobrevivência de instituições falidas, que tem nesses espaços os complementos indispensáveis à sua existência.

Um comentário de quem não é economista, não trabalha no mercado financeiro, não é banqueiro (embora já tenha sido bancário em priscas eras) e menos ainda empresário, a respeito da atual crise mundial de crédito, denominada genericamente de crise dos mercados. Não há outro assunto que ocupe tantos espaços na mídia. Os que ainda não sofreram irão purgar as conseqüências terríveis e virulentas da crise dos mercados, que irão se abater como as sete pragas que contaminaram o Egito. Ainda não se identificou quem faz o papel de Moisés, se a Coca-Cola, a Pepsico, a Monsanto, a Warner, a CNN, a Phillips, a Sony, a TNT, a city de Londres, a Exxon, La Maison Vuiton, a indústria automobilística, o Vale do Silício, a Microsoft, o Carrefour, a American Express, a General Electric, os bancos comerciais, a Apple, a indústria bélica, a máfia, as bolsas asiáticas, os países europeus, o euro, o dólar, a Rua do Muro de Nova Iorque, as transferências e as deslocalizações financeiro-monetárias, os clubes de futebol que funcionam como transnacionais, o Mc Donalds, a Disney, a Mottorola, a Vale, a rede mundial de computadores, o Mastercard ou o Visa, et caterva, ou uma ampla e etérea união de capitais que congrega todos esses entes aos quais nos curvamos e batemos palmas, submissos no papel de consumidores. Mas, sem dúvida, no papel de egípcios estaremos todos nós, de modo indistinto.
Botando os pingos nos iis: os mercados são o resultado visível e concreto das operações efetivadas por megacorporações que dominam a mercancia mundial e que detém poder suficiente para submeter as economias e portanto as políticas da maioria dos países. Para termos uma idéia da concentração e da força econômica de tais empresas, vamos citar, apenas de passagem, a Monsanto.
Em 2003, as 10 maiores controlavam um terço do mercado mundial. Hoje chegaram a 49 por cento do valor global das vendas desse insumo, segundo o informe Concentração da Indústria Global de Sementes – 2005, do Grupo ETC. Agora a Monsanto é a maior empresa de venda de sementes comerciais, além de já ter o monopólio virtual na venda de sementes transgênicas (88 por cento em nível global). Na última década, a Monsanto engoliu, entre outras empresas, a Advanta Canola Seeds, a Calgene, a Agracetus, a Holden, a Monsoy, a Agroceres, a Asgrow (soja e milho), a Dekalb Genetics e a divisão internacional de sementes da Cargill. Suas vendas de sementes, no último ano, alcançaram mais de 2,8 bilhões de dólares. A Monsanto e a Dupont têm sede nos Estados Unidos.
Em relação à área global cultivada, as sementes transgênicas da Monsanto cobriram 91 por cento da soja, 97 por cento do milho, 63,5 por cento do algodão e 59 por cento da canola. Em nível global (somando cultivos convencionais e transgênicos), a Monsanto domina 41 por cento do milho e 25 por cento da soja. A aquisição da Seminis permitiu à Monsanto alcançar a distribuição de 3.500 variedades de sementes a produtores de frutas e hortaliças em 150 países. Em setores onde a Monsanto era invisível, agora controla 34 por cento das pimentas, 31 por cento dos feijões, 38 por cento dos pepinos, 29 por cento dos pimentões, 23 por cento dos tomates e 25 por cento das cebolas, além de outras hortaliças. Silvia Ribeiro,pesquisadora do Grupo ETC http://www.etcgroup.org em http://alainet.org/active/10410&lang=es
A partir da década de 70 e capitaneados pela Escola de Chicago, tendo como guru Milton Friedman, os arautos do neoliberalismo implementaram uma nova ordem mundial, com o aporte ideológico e financeiro dos mesmos países que trouxeram a si os papéis de protagonistas em Bretton Woods: Estados Unidos e Inglaterra. A Escola de Chicago contrapunha-se ao keynesianismo, segundo o qual “a mão invisível do mercado” absolutamente não garantia nenhuma estabilidade reguladora na economia mundial, além de não ser eficiente no combate às crises e menos ainda dava qualquer segurança ao que se convencionou chamar de welfare state (estado de bem-estar social), ideologia política que propugnava por políticas sociais garantidoras dos direitos dos cidadãos. Para Keynes o Estado deveria intervir sempre que necessário para garantir uma economia saudável e socialmente compatível com sua própria função.
Os governos Reagan e Tatcher empunharam firmemente a bandeira do neoliberalismo que propunha a “diminuição do estado”, processo que foi acelerado especialmente a partir da década de setenta (século XX) com a crise mundial do petróleo. O neoliberalismo elencava como agenda a privatização de empresas estatais geradoras de lucro (muitas vezes em atividades sensíveis ou estratégicas), um trânsito mais liberado de encargos em relação ao fluxo internacional de capitais, especulativos ou não, a desregulamentação das leis trabalhistas, como meio de forçar o desmonte dos sindicatos, corroer os salários e forçar ajustes mais benéficos ao capital, a queda tarifária e tributária, como meio de desoneração das empresas, e o incentivo à guerra fiscal, pelo qual os estados deveriam ser selecionados para as atividades produtivas na proporção inversa dos tributos a serem pagos pelas empresas, além de outros critérios econômicos e políticos.
Por outro lado, o neoliberalismo foi beneficiado, igualmente, com um denso aporte tecnológico, em especial representado pelo desenvolvimento exponencial da informática e dos sistemas de telecomunicações. Não há praticamente um lugar de interesse ao mundo econômico que não seja rastreado via satélite e as informações nos chegam a todo momento dos mais diversos cantos do mundo. As mega-empresas, assim, podem usar todo um processo de deslocalização e transferir seus capitais a um toque no computador ou a um telefonema, visto que todos os sistemas econômico-financeiros são informatizados, a exemplo das redes bancárias, para usarmos um exemplo mais comum. Da mesma forma como operamos em caixas eletrônicos o fazem as grandes corporações. Só que o celular nunca está temporariamente desligado ou fora de área.
A atual crise dos mercados é uma crise de crédito. Emprestou-se dinheiro a quem não podia pagar. Depois venderam-se os títulos que não seriam pagos, e que foram comprados. Por outro lado, especulou-se na bolsa sem um lastro de liquidez possível. Dito assim parece ser simples. Na verdade é. Quando você vai viajar de carro, deve fazer uma revisão no veículo antes da viagem. Se ele tiver algum problema, resolva-o e só depois pegue a estrada. Simples assim. No caso o véículo teve problemas longe de tudo, mas o proprietário já sabia que iria dar problemas. Daí se conclui que, como não estamos lidando com amadores, muitos devem estar lucrando, mas, sem dúvidas, muitos mais estão pagando esses lucros adicionais.
Embora haja um razoável esforço midiático para aproximar metaforicamente mercados e pessoas comuns através da linguagem, não podemos nos enganar com expressões como “mercados nervosos”, “os mercados estão estressados”, “os mercados estão flutuando”, os “humores do mercado” ou qualquer outra preciosidade semelhante: se há algo que é absolutamente inumano são os mercados. Aos mercados só interessa o lucro, especialmente dentro de uma ideologia neo-liberal. Portanto não tenhamos ilusões. Capitais tem de vir de alguma parte; de onde eles venham, serão acolhidos. HILTON BESNOS

Até onde o conhecimento nos leva? E enfim, para que caminharmos? A própria caminhada nos ensina a andar e sabermos onde queremos ir ou, pelo menos, onde pretendemos chegar. Com o tempo e com o exercício de andarmos, vamos acumulando experiências, de tal modo que podemos reconhecer os atalhos, as curvas, as subidas mais ou menos íngremes, onde estão os regatos, as fontes, quando temos de mergulhar para atravessar um riacho. Nos movermos em relação ao conhecimento nos torna aprendentes mas, hoje em dia, esse caminho não é algo parecido com a reta que une dois pontos, partindo-se do mesmo plano. Alternativamente, temos vários planos que se fundem, que se atravessam, e os objetivos parecem, muitas vezes, esfumaçar-se. De certo modo, há uma névoa em tudo isso.
A difusão parece reinar em meio aos exercícios que fizemos para buscar algo que entrevemos, em alguma instância do futuro. No entanto, os planos se atravessam, o que é uma característica do nosso tempo atual: fossemos modernos e não pós-modernos, teríamos a certeza de que, trilhado um determinado caminho, atingiríamos um determinado lugar. Hoje vivenciamos instabilidades. Nossa época é francamente de consumidores, e não de produtores, como explicita Bauman. Confundimos situações que estão em mercado com situações que não são passíveis de ser negociadas, conforme lemos em Dany-Robert Dufour (1). A lista é grande e de qualidade. Pessoas que aprendem, mas aprendem o que, por que e para que, talvez essa devesse ser a pergunta mais correta a ser feita, uma pergunta que não pode prescindir de valores (axiologia).
Parece, contudo, que isso não importa muito.
De todo modo, temos de imaginar pontos ou objetivos que se encontram em movimento. Contudo, a incerteza e a instabilidade em um mundo voltado para o consumo nos faz lembrar o que, em 1927, Heisemberg concluía ser o princípio da incerteza, no que trata de física quântica, a das partículas elementares que constituem a matéria. Segundo o mesmo (2), “É impossível conhecer simultaneamente e com exatidão a posição e o momento de uma partícula.” Por momento entenda-se o produto da massa pela velocidade.
Embora não se investigue a física quântica aqui, podemos traçar alguns paralelos, quando pensamos no conhecimento e, especialmente no aspecto social do mesmo. Estudar é um valor, mas também é algo que visa a melhoria de nossas vidas no sentido prático. Conforme já o diz Domenico di Masi, se duas pessoas virem o mesmo filme, sendo uma delas ignorante e a outra não, sem dúvida não terão assistido o mesmo filme. Sabedoria provinda da experiência. No momento em que não nos arriscamos ao erro, a flutuar entre possibilidades, o conhecimento se afasta, se embarafusta em alguns dos vários planos pelos quais pretendemos vislumbrar melhores possibilidades.
Precisamos, antes de tudo, mesmo antes do objetivo, aprender a valorar. Saber intuitivamente que água é para ser bebida, o que nos leva ao risco de navegarmos entre as incertezas. Para isso se aprende, para nos tornarmos seres mais independentes do que antes éramos. Se não entendemos isso, transformamos o saber em uma mercadoria e a vida nos passará in albis. Pequenos prazeres, os de sempre, não mais que isso, uma vez que não nos dispomos ao risco. Por isso a aprendizagem, seja ela qual for, pode ser mediada por terceiros, mas somente quem aprende consegue corporal e mentalmente aquilatar as transformações que ela ocasionou. Em tudo somos seres encarnados. Mesmo nas buscas metafísicas somos encarnados.
De toda forma, caímos aqui no tipo de conhecimento que interessa. Ele é socialmente desejável, é relevante do ponto de vista econômico, é produtivo, tende à pesquisa e à troca de informações. Esse conhecimento é o que, em tese, faz com que as coisas aconteçam da maneira como acontecem. Faz com que pessoas casem e tenham filhos, faz com que estudem e busquem melhorar as suas vidas, ter um emprego que as valorize, ter o que dizer aos mais jovens, ter efetuado algo socialmente validado pelo discurso médio. Em termos mais estritos, é o conhecimento que interessa aquele que nos leva a perceber o outro enquanto diferente de nós, mas respeitável. É o que nos faz trabalhar em grupo, em equipe, é o que mantêm o status quo, é o que nossos pais gostariam firmemente que fizéssemos.
Nem sempre, porém, é possível vislumbrar tal tipo de conhecimento, pois é necessário que haja uma sutil gradação social, um processo que se dá já a partir das vivências que temos em nossa família, nos grupos sociais em que somos pares, nas ideologias que estão postas como cachos de uvas para serem saboreadas ou cuspidas. Se não conseguimos entender tais situações dentro da multivariedade de planos em que estamos colocados, nossa tendência será a de resistir. E resistir de modo bastante claro e por vezes incisivo àquele conhecimento que nos leva à angústia, a termos de suplantar nossas dores, ao sacrifício do abrir mão de algo para obter o que se espera. O processo de aprendizagem é longo, exige por vezes preços altos e nem todos se dispõem a pagá-lo ou tem a capacidade de renúncia esperada. Nem sempre os objetivos, por outro lado, são claros (aliás, são encobertos na maior parte das vezes). Contrariamente ao que tínhamos como fixado, como erguido às custas de sacrifício para que pudéssemos, mais tarde, desfrutar de uma posição confortável, apresenta-se a realidade como flexível, instável, pontilhista, fugaz.
A sabedoria é encontrar, ao longo de um processo assim caracterizado, uma miríade de pontos de equilíbrio onde possamos nos apoiar, não mais que temporariamente, não mais que rapidamente, não mais que fugazmente. Talvez por isso as profissões de eleição social não tragam, de per si, as vantagens que queremos obter. Verifique-se: os parâmetros utilizados são os dos produtores em época de consumidores, de carreiras plantadas e feitas de maneira unidirecional em época de transições. Nunca precisamos tanto dos outros, pois na medida em que os planos de interseção mudam, igualmente necessitamos que os outros nos alertem dessas mudanças. Não é simplesmente estudar por estudar, mas saber as razões de porque estudamos. Converter o estudo, o processo de ensino e de aprendizagem em um padrão meramente capitalista é uma rematada tolice.
As profissões de eleição social não garantem mais uma real ascenção social, a não ser aquela aliada ao nome institucional. Ser médico hoje é tão-só ser médico hoje, e não mais ser, como há quarenta anos, um deus. Poucos acreditam em deuses atualmente. Talvez nem eles, deuses, acreditem piamente no que são ou deveriam ser. É possível que o parâmetro então deva ser igualmente alterado e é bem mais realista que façamos um investimento em áreas nas quais, além das promessas, possamos ter aquela velha e tão aprazível sensação de que fizemos algo com nossas próprias mãos e nos sentimos felizes por que o fizemos. Que temos habilidade para algo e nos entregamos a esse algo na medida em que nos capacitamos mais e mais no desenvolvimento dessa habilidade.
Não basta, então buscar o conhecimento como se ele fosse um dogma, um castelo, uma universidade reclusa em si própria, como se o conhecimento fosse a garantia de um título, mas sim que o conhecimento nos traga a felicidade de descobrirmos que somos capazes de, que podemos, que a nossa auto-estima não depende da opinião de a, de b ou de c, sejam a, b e c quem forem. É possível então que vivamos em um mundo no qual as materialidades tenham menor importância do que tiveram para os nossos pais. Eles, sim, vivendo em um mundo no qual a segurança material era um apanágio de uma carreira linearmente estruturada, possuíam tal visão do mundo. Hoje, uma visão de mundo atual requer a não-linearidade, a complexidade, a abertura em relação ao outro e às suas diferenças e uma singular presença criativa e de cooperação.
Nada do que se faz, se faz só, mas nada do que se faz em conjunto se faz integralmente em conjunto. Aprendemos sós, mas na presença do outro, na interveniência do outro. Conforme Maturana, não podemos mudar nossos padrões e nem as nossas estruturas. O máximo que o outro pode fazer é perturbar-nos. Em meio a tais perturbações crescemos para um mundo no qual o conhecimento é indispensável. Talvez agora estejamos mais próximos do que nunca do compartilhamento, senão por concessão, por necessidade. Ouçam um músico tocar em duo, em trio, em orquestra. Cada instrumento continua sendo um instrumento, mas o efeito da harmonia é esplêndido. É possível que possamos entender um pouco mais do humano na medida em que nos cerquemos de harmonia.
A música tem muito a ensinar-nos. HILTON BESNOS

Estudar é um exercício e dos bons e, sem dúvida, um grande diferencial na vida de todos nós, desde que o signifiquemos, atribuindo-lhe importância. Para muitos, contudo, estudar não é tão apreciável ou apreciado. No mais das vezes quem não vê aí uma possibilidade de crescimento, ou que não consegue mais do que discursar de maneira conveniente a respeito do estudo, acaba por privilegiar as práticas de modo bastante eloqüente. Aliás, nesse último caso, tais pessoas tendem a afastar-se do que consideram mera teoria, configurando às últimas um sentido às vezes próximo do pejorativo. Uma vez aprendido um ofício, deixam de se importam com os padrões teóricos que informam e configuram esse mesmo ofício, e mesmo as atividades que dele decorrem. Uma das profissões que se debate nessa falsa dicotomia entre prática e teoria é a dos profissionais da educação.
Quantas e quantas vezes já ouvi tal entendimento, no sentido de que prática e teoria são divorciadas, e de que mais vale a experiência que a qualificação. A frase predileta, de resistência é : “não adianta o sujeito ter mestrado ou doutorado se não tem a minha prática e experiência, ou se não consegue estabelecer o tipo de relação que eu tenho com os meus alunos”. A complementação é dizer “conheço meus alunos como a palma das minhas mãos, suas famílias, seus problemas, et caterva“.
Meias-verdades que vivem pululando por aí. É necessário admitir, queiramos ou não, que um curso de mestrado e de doutorado (e além dele, de pós-doutorado) são enormes qualificadores na vida profissional do educador e que, além de dar maior visibilidade ao mesmo, igualmente servem de porta de acesso para níveis de maior conhecimento, além de abrir novas possibilidades para circular e operar em GTS (grupos de trabalho) de maior excelência.
Por outro lado, a prática e a experiência e mesmo os relacionamentos em sala de aula melhorariam bastante se o profissional pudesse ter uma melhor qualificação dentro do seu âmbito de trabalho, mas isso nem sempre é visualizado pelo mesmo. Questões como prática e experiência normalmente se ancoram em temas metodológicos e didáticos, enquanto relacionamentos podem ser compreendidos, por exemplo, a partir das teorias das inteligências múltiplas de Howard Gardner. Isso, por exemplo, não irá desconstituir nem minorar, e aqui outra menção, ao que Paulo Freire denomina de leitura social da classe, se referindo à prática de sala de aula, a um exercício competente de diagnose que tem mais a ver com uma integração e um conhecimento do universo cultural, social e econômico dos alunos/estudantes do que com atividades rotineiras de diagnóstico curricular. Portanto, a grande confusão que se faz é entendermos que teoria e prática são excludentes entre si e, a partir desse equívoco, optarmos por um padrão paradigmático dissociativo. Tais padrões mantém-se em uma linha de argumentação ideológica que pretende a separação entre duas instâncias de pensamento. Há, então, uma falsa sensação de que podemos simplesmente optar. A falsidade não é, em si, a opção, mas o fato de que ignoramos movimentos no sentido da aproximação, dentro de um contexto que é denominado de rede.
Podemos pensar, então, a partir das questões de dissociação, nos seguintes termos: eu sou prático, eu tenho o domínio do meu feudo de conhecimentos e, portanto, nada mais preciso fazer para obter sucesso do que me manter em minha própria zona de conforto e ir tocando o meu ensino do jeito que a minha experiência diz para ser feito. E pronto. Por outro lado, sou extremamente teórico, e não importa muito se os outros não me entendem, porque, realmente, teoria é para poucos iluminados, de tal maneira que me encontro em um patamar superior de conhecimento. Os outros que subam até minha pessoa, se conseguirem. Ambas as posições transitam dentro de uma sumária dissociação, porque não conseguem se integrar de modo mais flexível.
Quando um professor diz que sua prática é suficiente para resolver as questões de ensino que ocorrem na sala de aula, talvez esteja falando outra meia-verdade, pois o processo todo se tornará razoável quando o aluno/estudante estiver aprendendo. No momento em que dissocio a posição do ensino com a posição da aprendizagem, estou operando dentro de linhas que se excluem entre si. Por outro lado, desavisado ou ingênuo o professor que entende que a sua prática educacional não se filia a qualquer gênero de ideologia pedagógica. O fato de desconhecê-la, ignorá-la ou não se reconhecer como inserido dentro de uma linha de pensamento, inclusive instrumental, não significa que esteja criando algo novo, em termos de visão educativa. Assim é que os aspectos teóricos, antes de serem informados de modo tradicional, perpassam todo um background formativo ou, se quisermos, tais aspectos são constituem uma teia de relações estruturantes que permeiam o chamado ato pedagógico.
O desconhecimento teórico não impede que as matrizes ideológicas do mesmo sejam profundamente formativas, informativas, adotadas de modo natural (ou artificialmente naturalizado) e recebidas de modo passivo e acrítico. Portanto, quando um professor encara com certo desdém o empoderamento teórico de seu colega, está se integrando a uma certa ingenuidade intelectual que deveria, no mínimo, ser reconhecido e, sem dúvida, espantada. O privilegiamento ao fazer em detrimento ao conhecer , se reflete, por exemplo, no fato de que há uma massa considerável de professores que simplesmente relegam pesquisas educacionais a um plano inferior, usando o mesmo argumento de que conhecem suas turmas e, mais especificamente seus alunos, o que de modo nenhum invalida uma postura mais voltada para uma investigação criteriosa e com dados bem mais confiáveis que uma simples alegação baseada na cotidianidade da sala de aula. As bases concretas e especialmente as conclusões de um procedimento investigatório, não raro, são relegadas a um papel menor, o que é uma lástima. As culturas internas das escolas poderiam ter novas configurações se, além das tradicionais práticas de jogos de empoderamento de grupos em detrimento de outros, pudessem ver respondidas as seguintes perguntas, que poderiam integrar um plano articulado de pesquisa.
1) qual a produção intelectual de seus corpos docente e discente?
2) qual o grau de empoderamento teórico de seu corpo docente e como isso se reflete na aprendizagem?
3) de que modo o conhecimento teórico pode produzir uma melhoria dos aspectos didático-metodológicos no que se refere ao ensino e à aprendizagem?
4) qual o entendimento da pesquisa enquanto base confiável de dados privilegiadores das ações pedagógicas?
Essas são algumas perguntas que demandam pesquisa, afastando o execrável “achismo” por um lado, e concedendo possibilidades reais para um melhor conhecimento do próprio perfil da escola. De todo modo, trabalhos com base teórico-científica, além de qualificar o eixo pedagógico da escola, igualmente serviriam para tornar mais visível e explícito a própria cultura interna da mesma e de seus agentes educacionais, fornecendo pistas e/ou alternativas para minorar os males já tão conhecidos em nível de ensino e de aprendizagem.
Assim, o privilegiamento das questões teóricas não é simplesmente um modismo, uma tendência fugaz ou um motivo para estimular idiossincrasias locais, mas um esteio real para beneficiar a escola e suas práticas pedagógicas como um todo, além de beneficiar a nossa visão do processo educacional de modo mais amplo, bem como de seus atravessamentos. HILTON BESNOS

Zona de conforto é algo impressionante. Tem muito a ver com o que fazemos habitualmente. É aquele modo de vida, aquele cenário, aquele lugar que, por vários motivos, sejam reais ou imaginários, conferem a você a sensação de estabilidade. Não importa muito se você até não se sente bem na sua zona de conforto, simplesmente porque você se habitua a ela. A sensação de estabilidade nos acompanha pela vida toda, e possivelmente por isso seja tão complicado nos movermos para fora dessa zona, desse útero que escolhemos para nós mesmos. Sair dela significa enfrentar desafios de toda ordem, não importa se psicológicos, profissionais ou amorosos. Significa trocar hábitos, fugir da rotina: isso traz cenários de instabilidade, de dúvidas, e especialmente de troca de parâmetros, de molduras, de comodidades. É normalmente preferível reclamarmos contra o que temos do que lutarmos por algo diferente.
Domenico de Masi utiliza uma expressão, gossip cultural, que ocorre justamente quando a tecnologia ou os parâmetros sócio-culturais já estão já em mudança, mas continuamos pensando e agindo como os anteriores, aqueles que agora estão em modificação. Uma das questões, por exemplo, do homem pós-medievo, que continuava pensando com a cabeça de quem estava na Idade Média. Porque isso? Para mantermos nossa estabilidade, para nos reconhecermos, mesmo que esse reconhecimento implique em detectarmos a nossa própria paralisia e engessamento. Nossos modelos são ainda muito arraigados, e cada vez que efetivamente tentamos algo novo, diferente, temos uma sensação de instabilidade, de incerteza muito grande, então corremos para as nossas cavernas, para o aconchego do útero, que se nem sempre é confortável, pelo menos é confiável, no sentido de sabermos o que há ali. Sacrificamos ou não temos disciplina suficiente para implementarmos novos cenários porque nos habituamos com o que temos. Nossa alma envelhece, nosso corpo padece, mas somos incapazes de prestarmos atenção em nós mesmos. Os amores caem para a vala comum do esquecimento, as tristezas nos cercam como se estivéssemos ilhados, e os padrões aos quais nos habituamos são a única coisa que vemos.
Interrompemos nossa aprendizagem, e todo corpo vivo aprende, desde uma ameba até um sistema complexo. Não há aprendizagem sem o risco, portanto é preciso que seja criada a instabilidade do não-saber para que possamos continuar evoluindo como pessoas. Aprender, aqui, significa mover-se, predispor-se ao erro natural e, portanto, à crítica. No entanto, como vivemos em um mundo em que padrões já estão suficientemente assentados, não queremos errar, e, portanto, não queremos nos mover, porque a zona de conforto é algo que nos deixa estáveis. No entanto, a humanidade aprende todos os dias, todos os momentos, à todo instante, o que já seria bastante para que abandonássemos nossas pequenas idiossincrasias, nossas rotinas e passássemos a pensar de modo mais consistente em nós mesmos.
Talvez, se aprendêssemos mais, fôssemos mais felizes, mas isso implica, definitivamente, em sermos mais disciplinados, mais ousados em relação aos nossos próprios desejos, afastando o gesso que nos entorpece e o conforto que nos paralisa. HILTON BESNOS
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